Adriana Tanese Nogueira
Era domingo de manhã. A família estava na praia, misturando-se à
multidão de pessoas que tomavam sol, comiam, entravam na água e se
divertiam num final de semana de céu límpido. Mas Antonio e Maria não
podiam juntar-se em espírito à atmosfera relaxada daquela gente. Apesar
de brincar e conversar com as crianças, sua atenção estava presa às
redondezas. Quando dirigia-se aos filhos, o casal se mostrava sorridente
e tranquilo, para volta e meia lentavar os olhos e inspeccionar os
imediato arredores. Tudo parecia quieto, ninguém prestava atenção neles,
algumas crianças se aproximavam para dividir um brinquedo ou ajudar a
cavar o buraco na areia. A despreocupação geral, porém, era para Antonio
e Maria somente uma miragem que eles não podiam compartilhar.
Estava quente, o sol alto no céu anunciava o meio dia. Os estômagos
roncaram, “Está na hora de almoçar,” disse Antonio, pondo-se de pé.
Maria concordou, se levantou e chamou as crianças, “Vamos tirar essa areia do corpo? Vamos entrar na água?”
Foram todos para a água, ainda fresca mas não tão transparente como
umas horas antes. Mergulhar nela proporcionava uma sensação de alivio e
prazer. Leve e suave na pele, lavava tudo, menos a tensão que engesssava
suas vidas.
“Vamos, vamos queridos,” Maria apressou os filhos, “está na hora de ir embora.”
Enxurgaram-se o melhor que puderam. Apesar dos grãozinhos de areia aqui
e ali sobre a pele, se vestiram. De pés cheios de areia enfiados em
chinelos e com roupas semi molhadas no corpo, a família deu as costas à
praia lotada e caminhou em direção à rua.
“Não tem muita coisa em casa para comer,” disse Maria caminhando ao lado de Antonio e segurando um filho em cada mão.
“Sei. Vamos ao restaurante. Tem um aqui perto que não é caro. Espero que encontremos um lugar para sentar.”
Avistaram o estabelecimento de longe e viram que algumas das mesas da
calçada estavam livres. Adiantaram o passo para ter certeza de conseguir
uma. Logo, o garçom chegou. Como sempre, ordenaram só três pratos.
Antonio evitava o mais possível qualquer despesa extra, uma vez que
estava usando dinheiro dado-lhe pela VPR. Apesar desse pequeno fundo ser
destinado à sobrevivência da família, Antonio tomava cuidado para não
disperdiçar o dinheiro. Três pratos era o que a família de cinco pessoas
comia.
“Essa situação está se arrastando demais,” disse Antonio enquanto dividia a comida.
“Faz um mês que estamos aqui,” respondeu Maria, distribuindo os pratos entre as crianças.
“Não é seguro ficar parado tanto tempo no mesmo lugar.” Antonio sacudiu a cabeça. “Temos que conseguir sair daqui.”
Maria parou e olhou para ele, sem palavras. Os músculos do rosto
estavam tensos. Apesar de seus gestos condensarem em si controle e
calma, seu coração estava agitado. Maria arraigava-se no cuidado e na
precisão que ela dedicava aos afazeres diários e às crianças,
exorcisando, desta forma, o outro aspecto de sua realidade. Eles não
tinham mais uma residência para a qual voltar, sua casa se resumia a
dois sacos de lona enrolados onde carregavam seus poucos pertences. O
dia de amanhã era inescrutável e a vida corria em constante perigo.
Agora, as palavras de Antonio atiçaram a sensação apavorante de estar
presos, num refúgio que pode ser descoberto pelo inimigo a qualquer
hora. “Temos que conseguir sair daqui” pressupunha que eles não estavam
conseguindo ir adiante, estavam bloqueados como presas caídas naquelas
armadilhas que são buracos no chão. Parecem estar seguras somente até
que alguém as encontre.
....
0 comentários:
Postar um comentário