AVISO

Publico neste blog os primeiros parágrafos de cada capítulo conforme os escrevo. Esta é uma história longa. Todos os fatos são verídicos. Dialogos e detalhes são reconstruídos a partir do que sei e coletei em testemunhos. Há muito ainda a ser contado. A história inteira será publica somente daqui há um ano e estará disponível em livro. Para quem quer saber mais de mim é só ir para www.psicologiadialetica.com

41. Inescrutável destino

Adriana Tanese Nogueira
   
    Era domingo de manhã. A família estava na praia, misturando-se à multidão de pessoas que tomavam sol, comiam, entravam na água e se divertiam num final de semana de céu límpido. Mas Antonio e Maria não podiam juntar-se em espírito à atmosfera relaxada daquela gente. Apesar de brincar e conversar com as crianças, sua atenção estava presa às redondezas. Quando dirigia-se aos filhos, o casal se mostrava sorridente e tranquilo, para volta e meia lentavar os olhos e inspeccionar os imediato arredores. Tudo parecia quieto, ninguém prestava atenção neles, algumas crianças se aproximavam para dividir um brinquedo ou ajudar a cavar o buraco na areia. A despreocupação geral, porém, era para Antonio e Maria somente uma miragem que eles não podiam compartilhar.
    Estava quente, o sol alto no céu anunciava o meio dia. Os estômagos roncaram, “Está na hora de almoçar,” disse Antonio, pondo-se de pé.
    Maria concordou, se levantou e chamou as crianças, “Vamos tirar essa areia do corpo? Vamos entrar na água?”
    Foram todos para a água, ainda fresca mas não tão transparente como umas horas antes. Mergulhar nela proporcionava uma sensação de alivio e prazer. Leve e suave na pele, lavava tudo, menos a tensão que engesssava suas vidas.
    “Vamos, vamos queridos,” Maria apressou os filhos, “está na hora de ir embora.”
    Enxurgaram-se o melhor que puderam. Apesar dos grãozinhos de areia aqui e ali sobre a pele, se vestiram. De pés cheios de areia enfiados em chinelos e com roupas semi molhadas no corpo, a família deu as costas à praia lotada e caminhou em direção à rua.
    “Não tem muita coisa em casa para comer,” disse Maria caminhando ao lado de Antonio e segurando um filho em cada mão.
    “Sei. Vamos ao restaurante. Tem um aqui perto que não é caro. Espero que encontremos um lugar para sentar.”
    Avistaram o estabelecimento de longe e viram que algumas das mesas da calçada estavam livres. Adiantaram o passo para ter certeza de conseguir uma. Logo, o garçom chegou. Como sempre, ordenaram só três pratos. Antonio evitava o mais possível qualquer despesa extra, uma vez que estava usando dinheiro dado-lhe pela VPR. Apesar desse pequeno fundo ser destinado à sobrevivência da família, Antonio tomava cuidado para não disperdiçar o dinheiro. Três pratos era o que a família de cinco pessoas comia.
    “Essa situação está se arrastando demais,” disse Antonio enquanto dividia a comida.
    “Faz um mês que estamos aqui,” respondeu Maria, distribuindo os pratos entre as crianças.
    “Não é seguro ficar parado tanto tempo no mesmo lugar.” Antonio sacudiu a cabeça. “Temos que conseguir sair daqui.”
    Maria parou e olhou para ele, sem palavras. Os músculos do rosto estavam tensos. Apesar de seus gestos condensarem em si controle e calma, seu coração estava agitado. Maria arraigava-se no cuidado e na precisão que ela dedicava aos afazeres diários e às crianças, exorcisando, desta forma, o outro aspecto de sua realidade. Eles não tinham mais uma residência para a qual voltar, sua casa se resumia a dois sacos de lona enrolados onde carregavam seus poucos pertences. O dia de amanhã era inescrutável e a vida corria em constante perigo. Agora, as palavras de Antonio atiçaram a sensação apavorante de estar presos, num refúgio que pode ser descoberto pelo inimigo a qualquer hora. “Temos que conseguir sair daqui” pressupunha que eles não estavam conseguindo ir adiante, estavam bloqueados como presas caídas naquelas armadilhas que são buracos no chão. Parecem estar seguras somente até que alguém as encontre.
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