Adriana Tanese Nogueira
“Merda,” Rachel sussurrou espiando pela janela, “Têm dois idiotas lá fora.”
Os homens, de terno escuro, usando óculos de sol e chapéu, e fazendo de conta que estavam casualmente parados na calçada, na verdade estavam vigiando as redondezas, cada um olhando numa direção diferente. Ela sabia quem eram. O ar de casualdade fingida não podia enganar uma pessoa com uma quantidade normal de neurônios no cérebro, apesar de, ela suspeitava, eles se acreditarem invisíveis. Os dois indivíduos vestidos daquela forma ridícula em pleno verão, fazendo nada numa manhã em horário comercial, e, de vez em quando, lançando olhares para sua casa só podiam ser agentes do DOPS, esperando para pegar, a qualquer hora, Antonio, ou um de seus irmãos.
“Pro inferno eles,” disse Rachel com raiva controlada.
Lentamente, ela soltou a cortina, e olhou com anseio para sua cama. A pilha de roupa suja precisando ser substituída com a limpa jazia tristemente num canto. Ela desenrolou a toalha e rapidamente se vestiu. Sentindo-se exausta, se jogou sobre o lado livre da cama, desejando tirar um cochilo. Ao invés disso, ficou fitando o teto. Um profundo e irritado suspiro escapou de sua boca. A consciência da situação lá fora não podia ser postergada, apesar dos olhos sonolentos. O que fazer?
Uma semana tinha passado desde que Antonio os havia alertado sugerindo para se esconder. Ela havia dormido cada noite numa casa diferente. São Paulo era uma cidade tão grande que permitia a qualquer um desaparecer, como uma agulha num monte de feno. Osni devia estar em algum lugar que ela desconhecia. Ele tinha suficiente namoradas para nunca estar sem uma opção para passar a noite. Não tinha do que se preocupar com ele. Os amigos dela a havia recebido de braços abertos sem questionar, sendo aquela também uma oportunidade para eles estarem junto. Entretanto, não é nunca como estar em casa. Em particular, o próprio banheiro é um luxo que nenhuma casa de amigos pode oferecer. Rachel precisavam de um longo e refrescante banho e, por isso, havia voltado para casa nas pontas dos pés, às primeiras luzes do dia.
Agora, com os dois babuínos em preto lá fora ela não poderia sair da porta da frente, e bufou. Tá, ela pensou cedendo à única solução, vou ter que pular pela janela de trás.
Mas até quando continuaria escapando?
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