Adriana Tanese Nogueira
Um dia, o sangue frio finalmente ressurgiu no horizonte de sua vida. Após dias trancado em um apartamento com venezianas semi-fechadas, Antonio sentiu uma mudança interior, como uma luz acendendo, e ele começou a refletir.
Em primeiro lugar, ele pensou, estava lutando por uma boa causa, uma causa pela qual valia a pena arriscar a própria vida. Em segundo lugar, ele estava armado e tinha uma excelente pontaria, de modo que podia confiar em sua habilidade de auto-defesa. Terceiro, a polícia era brutal, mas não bem organizada. E, last but not least, uma bala no peito deles iria ferir tanto quanto no dele. Estavam empatados. Como o raciocínio lógico lhe confortava. Nada mais de viver escondido e com medo. Os medrosos são os primeiros a morrer
Antonio respirou fundo, silenciosamente fazendo sim com a cabeça enquanto ensaiava seu próprio raciocínio. Se aquela era sua realidade, havia de ser enfrentada sem vacilar, devendo ele estar pronto para o vier. Entretanto, havia um ponto fraco. O que aconteceria se fosse pego de surpresa? O elemento inesperado era seu calcanhar de Aquiles. Portanto, ele deveria ficar constantemente alerta, pois o choque repentino iria desencadear o pânico, e com ele a parálise da ação e a confusão do pensamento. Sangue frio e raciocínio claro haviam de ser preservados. Sem eles, nem mesmo uma arma poderosa seria de utilidade.
Ele olhou para Maria. Ela estava cozinhando. Ela levantou os olhos para conferir as crianças. Antonio observou sua calma. Ele não teria nunca imaginado que uma mulher vinda de uma família conservadora como a dela, e sem nenhuma experiência própria fosse reagir de uma forma aparentemente tão serena. Para além da imagem de dona de casa, ele a viu sob uma nova luz.
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