quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

11. Alexandre

Adriana Tanese Nogueira

Em São Paulo, ficamos na casa de meus avós, enquanto procurávamos um apartamento. A residência era pequena; dormíamos os quatro no pequeno quarto dos fundos, originariamente uma suite de empregada que havia sido transformada em espaço para costura. Nonna Pasqua reclamava. Além de ter gente demais em casa, nossa precária situação financeira a incomodava. Não era um mistério que meu pai não fosse seu herói. Por trás do sorriso e da boa educação ela discordava dele, mas não tinha nenhuma intenção de encarar um homem.

A alma de meu pai andava esticada como num arco no difícil equilíbrio entre a urgência de nutrir sua família e o desconfortável quesito que pulsava dentro. Ele buscava encontrar um trabalho que lhe servisse. Não tendo um específico treinamento profissional, ele levou adiante a tentativa de ser um vendedor. Idealmente qualquer produto seria aceitável. Ele persistiu no campo farmacêutico. O problema era que ele precisava de orientações. Como uma estrela solitária desgarrada ele tinha consciência de sua própria luz mas faltava-lhe a bússola para alcançar seus pares e o almejado brilhante futuro em algum lugar na vasta e escura galaxia. Sua atitude reflexiva perante a vida não ajudava. Ele gostava de ter um preciso entendimento da situação antes de agir e também apreciava argumentos inteligentes. Nada a ver com as mentes simples que ele encontrou no ambiente de vendas. A nonna, para quem não há coisas como vocação ou consciência, não tinha condições de entender meu pai e a pedra no sapato dele, pois ele queria ser um bom provedor.


Enquanto isso, a cidade vivia seus tempos conturbados. Na metropolis enxergáva-se os problemas sociais e políticos com sob uma lente de aumento. No mesmo mês em que nos mudamos para São Paulo, anônimos partidários do regime militar botaram fogo na sede da União Nacional dos Estudantes e três dias depois o governo militar aboliu o mandato do inteiro conselho diretor da Universidade de Brasília. Uma nova lei proibiu a existência a UNE assim como de todas as Uniões Estaduais de Estudantes. Greves e agitações apareciam nos jornais quase todas as semanas enquanto alguns dos reitores de universidades foram forçados a sair.

Mas nada disso nos tocou, ainda. Eram distantes e indefinidos rugidos de tumulto social que não podiam obscurecer nossa urgência, a de mudarmos para uma casa nossa. Minha mãe tomou a dianteira. Após pedir à nonna ficar conosco ela vôou para procurar um apartamento. Logo encontrou um. Estava localizado na ladeira da frente, a meio quilômetro de distância da casa de meus avós, no primeiro piso de um prédio de quatro andares todo coberto de pequenos azulejos azuis. Minha mãe o limpou rapidamente e nos mudamos.

A nova casa era confortável e espaçosa com dois quartos, uma sala e uma cozinha. Agora podíamos respirar. Meu pai comprou uns poucos móveis. Para mim estava bem assim, pois mais vazia a casa, mais espaço eu tinha para correr e me mexer. Minha mãe estava satisfeita porque ela agora vivia perto de sua família e sonhava ter todas as crianças crescendo juntas e coisas do tipo. Meu pai ganhava o suficiente para pagarmos as despesas mensais. O nonno Totò teve que nos salvar algumas vezes, mas no geral meus pais administravam bem o pouco que tínhamos.

Como esperado André precisava de mais atenção. Um novo médico diagnosticou-o com uma bronquite asmática, algo mais sério do que se acreditava. Daquele momento em diante, meus pais se tornaram em fieis seguidores de uma lista de medicamentos e de coisas a serem evitadas ou procuradas. Uma série de “nãos” perdurou por anos afora: não a um único grão de poeira, não ao pólem, não ao tal tecido, não a isso, não a aquilo e assim em diante. Oh, André! A despeito de sua plácida tranquilidade ele era exigente com os cuidados.

Mas como irmão era um companheiro legal, e paciente para com meu energético modo de viver. Todas as tardes, após nossa soneca, minha mãe nos levava até o pequeno jardim atrás do prédio. Enquanto o explorávamos, ela fazia amizade com outras mães, criando sua própria rede social. Tio Carlo, seu irmão mais velho, morava com a família a uns cinquentas metros acima, virando a esquina. A nonna estava em casa quase todos os dias, geralmente trazendo roupas para serem consertadas. Enquanto ela brincava conosco, minha mãe costurava.

De repente o impredizível, entretanto não supreendente, aconteceu. Uma nova gravidez se abateu sobre a vida de minha mãe como um relâmpago. A terceira, esta também chegou no período sem menstruação. Minha mãe gelou: com dois bebês e pouco dinheiro, como poderiam levar adiante uma nova gestação? Era algo insensato de se fazer. Ela havia ouvido a respeito de mulher que abortavam. Parecia fácil, nada tão ruim, e conversou com meu pai. Ele concordou. Os dois procuraram e encontraram uma profissional. A mulher assegurou minha mãe que ela estava ainda a tempo para abortar. Assim marcaram a data para o procedimento.

Naquele dia, minha mãe estava nervosa. O edifício localizado no centro da cidade não mostrava nenhuma específica placa do lado de fora. Ela e meu pai entraram num consultório particular. Ele permaneceu na pequena sala de espera e uma enfermeira levou minha mãe para um quarto onde uma maca de hospital reclinável dura e estreita esperava por ela. Após uma anestesia local, ela viu a profissional vestida de branco pegar dois instrumentos na forma de grandes colheres com longos cabos. A ferramenta foi inserida nela e girada para a direita e para a esquerda. Minha mãe viu-se de repente no meio da dor e terrivelmente assustada. Gritou forte e se contorceu. A enfermeira assistente lhe ofereceu um copo com dentro algo. Os braços de minha mãe agitando-se no ar fizeram-no cair no chão. Os minutos passaram lentamente. Enfim, acabou. Meu pai pagou e naquele mesmo dia eles voltaram para casa, carregando alguns remédios e o choque emocional dela.

Minha mãe precisou de vários meses para se recuperar completamente. Uma hemorrargia prolongada marcou as semanas seguintes, pedaços vermelho vívido de sangue eram perdidos todos os dias e ela se sentiu fraca e doente. Meu pai preocupou-se e chamou um amigo em Araçatuba para conselho. O homem assegurou-lhe que era uma questão de tempo, paciência e remédios.

Demorou seis semanas para processar fisicamente o adeus à pequena bebê que havia tentado entrar nesta vida cedo demais. Eu permaneci portanto a única filha. Desculpa irmãzinha. Devia haver uma fila lotada de almas empurrando e se acotovelando para entrar furtivamente nessa mãe extraordinária e você ganhou a corrida. Mas do lado de cá da vida, a palavra chave é limites. Uma pessoa não pode fazer uma enorme quantidade de coisas, entre elas não pode ter todas as crianças que gostaria nem ter controle total sobre seu próprio corpo e mente.

Agora que ela havia tentado os métodos duros, minha mãe iria definitivamente evitá-los no futuro e começou a tomar a pílula anticoncepcional. Seu sonho era ter cinco filhos, mas não um a cada ano. Afinal, eles estavam casados há somente dois anos. Minha mãe estava apreciando a nova vida num bairro agradável perto de sua família e amigos.

Naquela mesma época, o malestar social engrossou. Após a eleição direta de governadores que contrários ao regime, as autoridades decretaram o Ato Institucional n. 2 que bania todos os partidos políticos e criava dois outros, um para os partidários do governo e um segundo para a oposição que havia sobrado. A eleição presidencial se tornou indireta. Somente deputados e senadores podiam votar e haviam de fazê-lo abertamente, declarando se aceitavam ou rejeitavam o canditado escolhido pelos generais. O aumento de controle social promoveu o que iria ser em poucos anos um maciço exôdo para o exterior de um grande número de brasileiros pensantes.

Meu pai olhava para os eventos sociais longe nos seu horizonte. Alguns amigos comentaram com ele a situação, mas ele continuou lidanco com sua própria luta. Precisava encontrar um lugar no mundo do trabalho que combinasse com sua natureza. O primeiro emprego obtido não tinha nada a ver com ele e sentiu-se como um estranho observando pessoas tolas. As reuniões matinais de vendas eram escandalosamente infantis. Ele não conseguia conectar-se com colegas e chefes, desta forma parecendo um elemento esquisito, atraindo portanto a rejeição deles. E, não se identificando com a empresa, suas vendas foram catastróficas. Acabou sendo demitido. Uns dois meses depois, surgiu uma nova oportunidade. Desta vez ele começou com o pé direito. Na primeira entrevista foi indicado como um gerente em potencial.

Entretanto, diferentemente de minha mãe que se sentia realizada com a maternidade, meu pai levava adiante o trabalho como fosse uma etapa transitória na direção de alguma outra coisa. Completava suas obrigações mas não estava entusiasmado. Contudo, não havia outros planos em sua mente. Seus interesses englobavam discussões políticas e uma indagação mais ampla sobre as questões sociais. Nenhuma dessas atividades dava dinheiro e ainda por cima estavam se tornando perigosas.

Quanto o tempo de luto pelo aborto terminou e minha mãe voltou agradavelmente para sua vida, uma nova gravidez a golpeou. Não, ela não esqueceu de tomar uma pílula. É que esses bebês são realmente insistentes. A pílula mágica falhou e naturalmente um aborto estava fora de questão. Diante do estupor de minha mãe, meu pai sugeriu que fizesse a ligadura das trombas, um ginecologista amigo dele de nossa cidade natal faria a cirurgia de graça, após o nascimento do novo bebê. Não tinha alternativas. Três filhos haveria de ser suficiente. Minha mãe tinha problemas de veias varicosas e precisava usar as desconfortáveis meias elásticas o tempo todo, além do peso que havia ganho. Assim, foi decidido fechar a fábrica o quanto antes.

A nova gestação fluiu suavemente, o calor e a circulação sendo os únicos problema. O bebê parecia enorme, a julgar pelo tamanho de minha mãe. Mais uma vez ela precisou da ajuda de uma empregada quando a nonna Pasqua não podia estar presente. Todos fizeram brincadeiras a respeito de minha mãe, a mulher que fica grávida só de sentar sobre as cuecas do marido. Ela não gostava mas a verdade é que eles pareciam estar certos.
No aniversário do tio Carlo toda a família estava reunida e a festa durou horas. Naquela noite, na cama minha mãe se deu conta que o trabalho de parto havia começado. Às três da madrugada, estava na hora de apressar-se para o hospital. Meu pai foi correndo buscar a nonna Pasqua para ficar conosco e os dois se foram.

Minha mãe foi levada para um quarto cheio de mulheres em trabalho de parto, a antiga tranquilidade do interior estava perdida. Na cidade grande, os hospitais públicos tinham quartos com muitas camas e nesta ocasião todas elas estavam ocupadas por angustiadas mulheres com dor. Meu pai não pôde acompanhá-la desta vez. Minha mãe tentou manter-se calma e esperou. Na frente dela, uma mulher negra lamentava-se assustada. Minha mãe sentiu dó e a consolou. Seu nome era Augusta e ela iria se tornar nossa boa empregada um ano depois.

A noite passou, e às 8 da manhã uma enfermeira entrou e estourou a bolsa d’águas para acelerar as contrações. Prontamente, minha mãe sentiu os puxos e foi levada para o centro cirúrgico.

Desta vez foi realmente fácil. Logo um robusto bebê menino de cinco quilos gentilmente entrou neste mundo. Enrolado nos panos verdes hospitalares, ele foi mostrado à sua mãe e levado para o berçário. Alexandre nasceu. Era 9 de Dezembro de 1966.


sábado, 9 de janeiro de 2010

10. Vida de Família em Araçatuba

Adriana Tanese Nogueira


Como um suave e gentil rio a vida em Araçatuba fluia estável e pacífica. Nossa casa tinha um jardim na frente que eu explorava em liberdade. Além da baixa cerca branca, a rua tranquila com pessoas amigáveis que passavam ocasionalmente completavam a vista.

Entretanto, minha mãe Maria não estava tão entusiasmada como antes. A cidade era quente demais e as gravidezes haviam lhe haviam dado a sensação que fosse ainda mais quente e insuportável. Ela sentia falta de sua família, que vivia a centenas de quilômetros de distância, na cidade de São Paulo. Seu irmão mais velho havia casado e uma bebê nascido. Teria sido bom ter seu pessoal perto. A família de minha mãe era mais do tipo convencional, com definido papeis tradicionais para cada um. Apesar disso poder ser claustrofóbico, papei predizíveis dão uma sensação de conforto. A família do meu pai ao invéz era completamente diferente e tão fascinante quanto às vezes complicada.

Seus irmãos eram ainda jovens demais para ter casado. Rachel tinha 18 anos e Osni 16 na época em que nasci. O estilo de vida do qual eles gozavam oferecia-lhes a independência de ir por aí livremente e experimentar o mundo que pessoas como minha mãe nunca teriam mesmo após deixar a casa paterna, pois estariam casadas com filhos e novas responsabilidades.

Tia Rachel era um moleque. Ela resistiu às tentativas de sua mãe de colocá-la no papel de dama com vestidos sedosos e perolados e graciosos penteados. De vez em quando a agradava, para logo em seguida voltar a seu estilo preferido: shortes e camiseta, e uma longa trança balançando nas costas. Ela aceitou, porém, uma das marcas da nobre perspectiva de sua mãe com relação à educação feminina: as aulas de piano, um treinamento que ela levou adiante por muitos anos.

Tia Rachel era, como sua mãe, atraída por coisas e pessoas japonesas. Ela passava seus dias no templo Budista, onde encontrou seu amigos para a vida e seu primeiro amor. Quando minha mãe entrou na família, a Rachel e um jovem monge eramo muito próximos. O moço de bela aparência e sábio atraiu fortemente a Rachel para ele. Quando ele retornou ao Japão, tia Rachel passou um longo tempo na dúvida se iria segui-lo. Sentia saudades. Vovó Lourdes ficou ansiosa e, conforme disse para minha mãe, escondeu as cartas da filha as cartas que ele enviava por medo que esta pudesse mudar-se. Mas Rachel recebeu algumas delas quando acontecia do carteiro pegá-la em casa. Conversou com sua melhor amiga e a família dela a qual, por pertencer a outro grupo budista, sugeriu que a linha do monge não valia a pena. Mesmo assim, a relação sobreviveu por meses através de cartas de ambos os lados. No final, um dia Rachel encontrou o pacote de cartas escondidos no fundo de uma gaveda. Foi uma dolorosa descoberta. Ficou brava com sua mãe e as duas discutiram. Logo depois ela foi para São Paulo, onde de vez em quando havia ido para fazer algum curso. Desta vez ela foi para ficar.

Osni era esbelto e de media estatura; um moço bonito, loiro de animados olhos verdes. Nunca em casa, ele amava animais e, apesar de também caçá-los de vez em quando, era ternamente capaz de cuidar de uma pata ferida ou de uma pele machucada, ou enfim de nutrir um filhote órfão. Ele tinha a habilidade do garoto acostumado a viver no meio da natureza, entre animais de todo tipo. Seu espírito sentimental entrelaçava-se com uma abordagem astuta para com a realidade e as pessoas. Sempre de bolsos vazios, ele buscava formas de conseguir dinheiro para pagar por um suco quando com os amigos ou mesmo comprar uma camisa nova, pois Osni era vaidoso. Uma vez aconteceu dele forçar a porta de casa quando não estávamos para pegar umas amostras de medicamentos do depósito de meu pai para vendê-las nas farmácias.

Minha mãe sentiu-se muito bemvinda pelo Osni. Ele não tinha nenhum interesse para preservar. A presença dela na família não representava ameaça alguma para ele. Ao contrário, ele apreciava seu jeito maternal e quando por perto degustava doces e comida, brincado e fazendo piadas como sempre. Os dois tiveram uma relação respeitosa e afetuosa desde sempre.

Sobre Osni não estavam postas reais exigências. Ele cresceu for a das rígidas fronteiras que vovó Lourdes estabeleceu para seu primeiro filho, Antonio, e de alguma forma para sua primeira filha, Rachel. Osni parecia como uma sobra, por isso mais livre e solto. Ele, como Rachel, era brincalhão e tão charmoso quanto esperto. Não sempre confiável, porém.

Meu pai, ao contrário, havia sido criado para ser o herói da família. Sobre seus ombros pesavam solenes expectativas surgidas do coração de sua mãe. A natureza possessiva de vovó Lourdes manobrava ocultamente. Ela não conseguia se segurar. Carente e só, ela tremia cada vez que imaginava estar perdendo o vínculo com o seu Antonio, o qual não podia simplesmente deixar cair suas esperanças e voar longe. Sendo valorizado e apoiado por ela, ele também sentia-se responsável por não causar-lhe mais dores daquelas pelas quais ela já lamentava. Portanto, a política de meu pai consistia em agradá-la, ou nas palavras dele, em ser tolerante. E aqui estava o ponto que mais incomodava minha mãe.

Quando meu pai casou, quem quer que fosse sua esposa, não iria ter uma vida fácil na família dele. Desde o começo do casamento, vovó Lourdes costumava visitar o novo casal quase todos os dias. Ela espreitava sobre a vida deles e sobre como minha mãe administrava a casa. Tudo era uma espécie de novo mundo mágico onde vovó respirava aquele abraço familiar acolhedor que ela nunca recebeu. Infelizmente, ela com frequência usava mal sua influência defletindo-a para pregações e direcionamentos.

Vovó Lourdes sofria incessantemente do medo de ser traída, sobretudo depois que havia se tornado repentinamente rica. Ela desconfiava da ajuda profissional para administrar suas propriedades. Portanto, seu amigo e referência era seu primeiro filho, Antonio, meu pai. Esta era mais uma razão para aparecer em casa.

Os lanches da tarde eram o momento favorito para vóvó Lourdes chegar em casa. Ela gostava de tomar seu café bem fraco, o chamávamos de chafé. Sentada e sorrindo radiosamente, ela esperava para ser servida pela jovem e gentil italiana, minha mãe. Já que a última havia passado sua vida em trabalho e obediência, ela não sabia como mudar esse padrão. Do ponto de vista de vovó Lourdes, a união de meus pais devia ter-lhe aparecido a perfeita combinação de dons. Seu filho lhe dava atenção enquanto sua nora era uma excelente cozinheira e uma mulher paciente. Amor e comida reunidos. Ela nunca deixou nossa casa sem ter comido algo saboroso. Quando a nonna Pasqua vinha nos visitar, ela cozinhava suas delícias e abertamente as oferecia à vovó Lourdes. Como era seu hábito, nonna Pasqua era socialmente sempre muito agradável. Mas isso não significava que ela gostava de sua hóspede. Assim que a outra saia de casa, nonna Pasqua criticava sua gula.

As mentalidades das duas famílias eram incompatíveis. Vovó Lourdes pertencia à classe social dos proprietários de terra brancos acostumados a ter empregados domésticos. Nonna Pasqua vinha de uma família pobre que nem possuia um banheiro em casa e para a qual os filhos eram uma importante força de trabalho para a sobrevivência da famíla. Vovó Lourdes ao contrário tinha constantemente alguém em casa, uma empregada ou uma das garotas que ela adotou, a qual, mesmo trabalhando tinha uma vida melhor daquela que havia deixado junto à sua paupérrima família. Na cultura de nonna Pasqua ter uma empregada seria um absurdo, uma vez que há os flhos para fazer o serviço. Vovó Lourdes nunca entregaria as atividades domésticas para seus filhos. Em seu mundo a força de trabalho era barata e conveniente para ambas as partes. Uma garota contratada iria encontrar abrigo e comida além de seu pequeno salário. Isto era normalmente melhor para ela do que ganhar mais e ter que pagar por todas as contas.

Nonna Pasqua havia sido uma mãe fria, nenhuma ternura ou toque amoroso eram reservados para seus filhos. Ela agradava os hóspedes, nunca eles, com exceção de seu filho mais velho o qual ela servia e que trabalhava do alvorecer ao entardecer. Vovó Lourdes ao invéz dava grande importância ao agrado e ser agradada, não qualquer um porém. Ela tinha suas preferências e as mantinha sem questionamentos.

Cozinhar era, para Pasqua, a ocupação feminina proeminente, junto com os cuidados da casa. Ela portanto não podia admirar uma mulher da sua idade que não se dedicava às mesmas coisas. Valores que não pertencessem à vida prática e diária não faziam sentido para Pasqua. O pão de cada dia: isto era importante. Seu horizonte esticava-se entre o pão salgado e o doce, com umas dúzias de deliciosas possibilidade do uso do grão entre eles.

Vovó Lourdes não cozinhava de verdade. Mas havia estudado e pretendia administrar propriedades. Ela apreciava coisas tipo Conhecimento, Patriotismo, Independência, Projetos e assim por diante. Infelizmente, ela viveu em um tempo e lugar onde uma mulher estudada e ambiciosas dificilmente podia ser aceita. Não conheceu ninhos sociais, mas um terreno constantemente instável. Para finalizar, ela passou quatorze anos com um homem que a agrediu verbal e emocionalmente e que tentou subjugá-la com todos os meios. Para vovó Lourdes era uma questão que uma pessoa barbárica e ignorante não podia governar uma culta, sobretudo se fosse ela. Sua posição social estava construída sobre a certeza de sua superioridade devida a dinheiro e conhecimento, uma mentalidade que cabe como uma luva em séculos de história brasileira. Quando o dinheiro se foi e após ela ter finalmente se livrado do marido abusivo, a cultura e os hábitos mantiveram os gestos da doma orgulhosa, misturados nos tempos ruins com a autopiedade e a tristeza.

Ambas as avós, entretanto, mantinham uma especial lealdade para com seus homens favoritos, que eram seus primeiros filhos.

Quando vovó Lourdes chegava em casa dirigia-se somente a meu pai. Naturalmente, eles tinha seus negócios para cuidar, os quais giravam em torno de terras, e de compra e venda. E minha mãe respeitava isso. Mas a inteira atmosfera estava temperada pelos projetos e sonhos dela com os quais ela tecia uma estreita e invisível rede em volta de seu filho. De vez em quando, ela parava, esticava a face e pedia-lhe um beijo.

Ela o criou para que ele personificasse o inteiro pacote que ela esperava de um homem: afeto e inteligência, beleza e elegância. Ela queria um homem que fosse abordável e tivesse habilidades de escuta.

Ela conseguiu. Meu pai era tudo isso e obviamente manteve suas funções de filho após o casamento. Previsivelmente, minha mãe ficou de fora. Vovó Lourdes não a considerava parte da conversa. Para minha mãe, a qual não estava acostumada a expressar suas idéias, sobrava o “trabalho de esposa”: servir o almoço à sogra e ao marido. “Eles parecem namorados!” nonna Pasqua uma vez observou.

Mas minha mãe não era nem acéfala ou fraca. Sua primeira e única crise aconteceu quando estava grávida de mim. Vovó Lourdes havia estado em casa naquela tarde e a perturbou enormemente. Após ela sair, minha mãe não pôde mais engolir à força seus sentimentos. Esgotada, ela caiu em prantos. Quando meu pai chegou aquela noite ela lhe contou tudo o que pensava sobre sua mãe, o quanto ela era ciumenta, arrogante e controladora. Enfim, o quanto ela era insuportável.

Ele ouviu e a confortou, acalmando suas lágrimas. Ele acreditava que sua mãe era desafortunada com os homens, por isso triste e só, enquanto que minha mãe tinha sorte e era forte, não percebendo, desta maneira, a potência do comportamento opressivo de vovó Lourdes. Em nome da harmonia, ele pensava que sua mãe tivesse que ser aceita do jeito que era, e agradada porque, afinal, como ele genuinamente acreditava, isto não custava muito. Entretanto, daquele momento em diante ele evitou toda possível fricção entre as duas mulheres.

Minha mãe percebeu que estava por conta própria e decidiu mudar de tática. Tomou distância da sogra e todas as vezes que se encontravam inventava desculpas para não estar disponível. Falava pouco e fazia alguma outra coisa. Quando eles tinham que ir visitar vovó, minha mãe não ficava por perto deixando que os dois conversassem entre si.

Após meu nascimento as coisas pioraram, porque vovó Lourdes intervinha intensivamente. O clima de competição que surgiu era o que minha mãe mais detestava.

Mas meu pai percebeu que a situação estava realmente ruim e diante das constantes interferências de vovó, numa ocasião em que ela chegava à nossa casa, a abordou ainda na calçada e lhe disse: "Olha mãe, se a senhora continuar interferindo e fazendo intriga na minha familia eu CORTO com a senhora." Vovó assustou-se e incomodou-se. Dalí em diante, ela teve que fazer o esforço de conter sua avassaladora tendência a intrometer-se.

Mesmo assim, minha mãe se sentiu aliviada quando meu pai anunciou que iria procurar por um novo trabalho em São Paulo. Muitos de seus amigos já havia se mudado para lá, para trabalhar ou estudar.

Era tempo de mudar horizontes e abrir novos caminhos.