AVISO

Publico neste blog os primeiros parágrafos de cada capítulo conforme os escrevo. Esta é uma história longa. Todos os fatos são verídicos. Dialogos e detalhes são reconstruídos a partir do que sei e coletei em testemunhos. Há muito ainda a ser contado. A história inteira será publica somente daqui há um ano e estará disponível em livro. Para quem quer saber mais de mim é só ir para www.psicologiadialetica.com

17. “Homens de Deus deveriam somente rezar”

Adriana Tanese Nogueira

          Minha mãe estava costurando quando a campainha da porta tocou. Nos après Samos, antecipando a surpresa que nonna Pasqua havia anunciado cedo aquele dia. Entre gritinhos agudos e felizes e risos demos as boas vindas ao irmão mais novo de minha mãe, um jovem grave, que era também divertido quando ele decidia sê-lo. Tio Leonardo vestia uma camisa abotoada até o a gola. Magro e mais alto do que minha mãe, ele usava óculos com uma pesada moldura preta.
Seus cabelos bem escuros eram cuidadosamente penteados e repartidos de lado. Ele entrou sorrindo. Como de costume, segurava um livro numa mão, mas na outra havia um pacote colorido, com fitas e uma forma interessante. Alongado e estreito, o objeto imediatamente chamou nossa atenção. Eu e meus irmãos no reunimos em volta do seu lado direito, onde ele segurava o pacote com ar distraído. Ignorando propositalmente nossa ansiedade, ele comprimentou minha mãe com um beijo e um abraço. As visitas do tio Leonardo não eram frequentes. Sua vida dividia-se entre universidade e trabalho, além de sua namorada possessiva. Meu próprios avós o viam somente tarde de noite, quando ele chegava em casa, exausto, para fazer um lanche e dormir.
          Olhos para cima, André puxou o braço do tio Leonardo, suas grandes íris marrons implorando por atenção e morrendo de curiosidade. Adorávamos surpresas, sobretudo quando elas aconteciam fora das datas festivas. Não era o aniversário de ninguém, nem Natal ou Páscoa.
          “Tudo bem,” o tio Leonardo sorriu carinhosamente e pegou o André no colo, abrançando-o, “Você quer saber o que tem aqui dentro?”
          “Sim, sim!” eu disse em voz alta, pulando de alegria como um coelhinho enquanto o André fazia sim com a cabeça. Alexandre no colo de minha mãe nos fitava tentando acompanhar a situação. Ele estava com um ano e sete meses, ainda um bebezão gorducho e sorridente, de bem com a vida mas pouco loquaz.
          “Então”, continuou o tio Leonardo, “Você vai ter que abri-lo.” E deu o pacote para o André, colocou-o no chão e sorriu enquanto assistia à nossa corrida até a mesinha de canto perto do sofá.
          “O que aconteceu, Leonardo? Por que essa surpresa?” perguntou minha mãe, levando-o para a cozinha onde ela começou a preparar o café da tarde. 
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