sábado, 9 de janeiro de 2010

10. Vida de Família em Araçatuba

Adriana Tanese Nogueira


Como um suave e gentil rio a vida em Araçatuba fluia estável e pacífica. Nossa casa tinha um jardim na frente que eu explorava em liberdade. Além da baixa cerca branca, a rua tranquila com pessoas amigáveis que passavam ocasionalmente completavam a vista.

Entretanto, minha mãe Maria não estava tão entusiasmada como antes. A cidade era quente demais e as gravidezes haviam lhe haviam dado a sensação que fosse ainda mais quente e insuportável. Ela sentia falta de sua família, que vivia a centenas de quilômetros de distância, na cidade de São Paulo. Seu irmão mais velho havia casado e uma bebê nascido. Teria sido bom ter seu pessoal perto. A família de minha mãe era mais do tipo convencional, com definido papeis tradicionais para cada um. Apesar disso poder ser claustrofóbico, papei predizíveis dão uma sensação de conforto. A família do meu pai ao invéz era completamente diferente e tão fascinante quanto às vezes complicada.

Seus irmãos eram ainda jovens demais para ter casado. Rachel tinha 18 anos e Osni 16 na época em que nasci. O estilo de vida do qual eles gozavam oferecia-lhes a independência de ir por aí livremente e experimentar o mundo que pessoas como minha mãe nunca teriam mesmo após deixar a casa paterna, pois estariam casadas com filhos e novas responsabilidades.

Tia Rachel era um moleque. Ela resistiu às tentativas de sua mãe de colocá-la no papel de dama com vestidos sedosos e perolados e graciosos penteados. De vez em quando a agradava, para logo em seguida voltar a seu estilo preferido: shortes e camiseta, e uma longa trança balançando nas costas. Ela aceitou, porém, uma das marcas da nobre perspectiva de sua mãe com relação à educação feminina: as aulas de piano, um treinamento que ela levou adiante por muitos anos.

Tia Rachel era, como sua mãe, atraída por coisas e pessoas japonesas. Ela passava seus dias no templo Budista, onde encontrou seu amigos para a vida e seu primeiro amor. Quando minha mãe entrou na família, a Rachel e um jovem monge eramo muito próximos. O moço de bela aparência e sábio atraiu fortemente a Rachel para ele. Quando ele retornou ao Japão, tia Rachel passou um longo tempo na dúvida se iria segui-lo. Sentia saudades. Vovó Lourdes ficou ansiosa e, conforme disse para minha mãe, escondeu as cartas da filha as cartas que ele enviava por medo que esta pudesse mudar-se. Mas Rachel recebeu algumas delas quando acontecia do carteiro pegá-la em casa. Conversou com sua melhor amiga e a família dela a qual, por pertencer a outro grupo budista, sugeriu que a linha do monge não valia a pena. Mesmo assim, a relação sobreviveu por meses através de cartas de ambos os lados. No final, um dia Rachel encontrou o pacote de cartas escondidos no fundo de uma gaveda. Foi uma dolorosa descoberta. Ficou brava com sua mãe e as duas discutiram. Logo depois ela foi para São Paulo, onde de vez em quando havia ido para fazer algum curso. Desta vez ela foi para ficar.

Osni era esbelto e de media estatura; um moço bonito, loiro de animados olhos verdes. Nunca em casa, ele amava animais e, apesar de também caçá-los de vez em quando, era ternamente capaz de cuidar de uma pata ferida ou de uma pele machucada, ou enfim de nutrir um filhote órfão. Ele tinha a habilidade do garoto acostumado a viver no meio da natureza, entre animais de todo tipo. Seu espírito sentimental entrelaçava-se com uma abordagem astuta para com a realidade e as pessoas. Sempre de bolsos vazios, ele buscava formas de conseguir dinheiro para pagar por um suco quando com os amigos ou mesmo comprar uma camisa nova, pois Osni era vaidoso. Uma vez aconteceu dele forçar a porta de casa quando não estávamos para pegar umas amostras de medicamentos do depósito de meu pai para vendê-las nas farmácias.

Minha mãe sentiu-se muito bemvinda pelo Osni. Ele não tinha nenhum interesse para preservar. A presença dela na família não representava ameaça alguma para ele. Ao contrário, ele apreciava seu jeito maternal e quando por perto degustava doces e comida, brincado e fazendo piadas como sempre. Os dois tiveram uma relação respeitosa e afetuosa desde sempre.

Sobre Osni não estavam postas reais exigências. Ele cresceu for a das rígidas fronteiras que vovó Lourdes estabeleceu para seu primeiro filho, Antonio, e de alguma forma para sua primeira filha, Rachel. Osni parecia como uma sobra, por isso mais livre e solto. Ele, como Rachel, era brincalhão e tão charmoso quanto esperto. Não sempre confiável, porém.

Meu pai, ao contrário, havia sido criado para ser o herói da família. Sobre seus ombros pesavam solenes expectativas surgidas do coração de sua mãe. A natureza possessiva de vovó Lourdes manobrava ocultamente. Ela não conseguia se segurar. Carente e só, ela tremia cada vez que imaginava estar perdendo o vínculo com o seu Antonio, o qual não podia simplesmente deixar cair suas esperanças e voar longe. Sendo valorizado e apoiado por ela, ele também sentia-se responsável por não causar-lhe mais dores daquelas pelas quais ela já lamentava. Portanto, a política de meu pai consistia em agradá-la, ou nas palavras dele, em ser tolerante. E aqui estava o ponto que mais incomodava minha mãe.

Quando meu pai casou, quem quer que fosse sua esposa, não iria ter uma vida fácil na família dele. Desde o começo do casamento, vovó Lourdes costumava visitar o novo casal quase todos os dias. Ela espreitava sobre a vida deles e sobre como minha mãe administrava a casa. Tudo era uma espécie de novo mundo mágico onde vovó respirava aquele abraço familiar acolhedor que ela nunca recebeu. Infelizmente, ela com frequência usava mal sua influência defletindo-a para pregações e direcionamentos.

Vovó Lourdes sofria incessantemente do medo de ser traída, sobretudo depois que havia se tornado repentinamente rica. Ela desconfiava da ajuda profissional para administrar suas propriedades. Portanto, seu amigo e referência era seu primeiro filho, Antonio, meu pai. Esta era mais uma razão para aparecer em casa.

Os lanches da tarde eram o momento favorito para vóvó Lourdes chegar em casa. Ela gostava de tomar seu café bem fraco, o chamávamos de chafé. Sentada e sorrindo radiosamente, ela esperava para ser servida pela jovem e gentil italiana, minha mãe. Já que a última havia passado sua vida em trabalho e obediência, ela não sabia como mudar esse padrão. Do ponto de vista de vovó Lourdes, a união de meus pais devia ter-lhe aparecido a perfeita combinação de dons. Seu filho lhe dava atenção enquanto sua nora era uma excelente cozinheira e uma mulher paciente. Amor e comida reunidos. Ela nunca deixou nossa casa sem ter comido algo saboroso. Quando a nonna Pasqua vinha nos visitar, ela cozinhava suas delícias e abertamente as oferecia à vovó Lourdes. Como era seu hábito, nonna Pasqua era socialmente sempre muito agradável. Mas isso não significava que ela gostava de sua hóspede. Assim que a outra saia de casa, nonna Pasqua criticava sua gula.

As mentalidades das duas famílias eram incompatíveis. Vovó Lourdes pertencia à classe social dos proprietários de terra brancos acostumados a ter empregados domésticos. Nonna Pasqua vinha de uma família pobre que nem possuia um banheiro em casa e para a qual os filhos eram uma importante força de trabalho para a sobrevivência da famíla. Vovó Lourdes ao contrário tinha constantemente alguém em casa, uma empregada ou uma das garotas que ela adotou, a qual, mesmo trabalhando tinha uma vida melhor daquela que havia deixado junto à sua paupérrima família. Na cultura de nonna Pasqua ter uma empregada seria um absurdo, uma vez que há os flhos para fazer o serviço. Vovó Lourdes nunca entregaria as atividades domésticas para seus filhos. Em seu mundo a força de trabalho era barata e conveniente para ambas as partes. Uma garota contratada iria encontrar abrigo e comida além de seu pequeno salário. Isto era normalmente melhor para ela do que ganhar mais e ter que pagar por todas as contas.

Nonna Pasqua havia sido uma mãe fria, nenhuma ternura ou toque amoroso eram reservados para seus filhos. Ela agradava os hóspedes, nunca eles, com exceção de seu filho mais velho o qual ela servia e que trabalhava do alvorecer ao entardecer. Vovó Lourdes ao invéz dava grande importância ao agrado e ser agradada, não qualquer um porém. Ela tinha suas preferências e as mantinha sem questionamentos.

Cozinhar era, para Pasqua, a ocupação feminina proeminente, junto com os cuidados da casa. Ela portanto não podia admirar uma mulher da sua idade que não se dedicava às mesmas coisas. Valores que não pertencessem à vida prática e diária não faziam sentido para Pasqua. O pão de cada dia: isto era importante. Seu horizonte esticava-se entre o pão salgado e o doce, com umas dúzias de deliciosas possibilidade do uso do grão entre eles.

Vovó Lourdes não cozinhava de verdade. Mas havia estudado e pretendia administrar propriedades. Ela apreciava coisas tipo Conhecimento, Patriotismo, Independência, Projetos e assim por diante. Infelizmente, ela viveu em um tempo e lugar onde uma mulher estudada e ambiciosas dificilmente podia ser aceita. Não conheceu ninhos sociais, mas um terreno constantemente instável. Para finalizar, ela passou quatorze anos com um homem que a agrediu verbal e emocionalmente e que tentou subjugá-la com todos os meios. Para vovó Lourdes era uma questão que uma pessoa barbárica e ignorante não podia governar uma culta, sobretudo se fosse ela. Sua posição social estava construída sobre a certeza de sua superioridade devida a dinheiro e conhecimento, uma mentalidade que cabe como uma luva em séculos de história brasileira. Quando o dinheiro se foi e após ela ter finalmente se livrado do marido abusivo, a cultura e os hábitos mantiveram os gestos da doma orgulhosa, misturados nos tempos ruins com a autopiedade e a tristeza.

Ambas as avós, entretanto, mantinham uma especial lealdade para com seus homens favoritos, que eram seus primeiros filhos.

Quando vovó Lourdes chegava em casa dirigia-se somente a meu pai. Naturalmente, eles tinha seus negócios para cuidar, os quais giravam em torno de terras, e de compra e venda. E minha mãe respeitava isso. Mas a inteira atmosfera estava temperada pelos projetos e sonhos dela com os quais ela tecia uma estreita e invisível rede em volta de seu filho. De vez em quando, ela parava, esticava a face e pedia-lhe um beijo.

Ela o criou para que ele personificasse o inteiro pacote que ela esperava de um homem: afeto e inteligência, beleza e elegância. Ela queria um homem que fosse abordável e tivesse habilidades de escuta.

Ela conseguiu. Meu pai era tudo isso e obviamente manteve suas funções de filho após o casamento. Previsivelmente, minha mãe ficou de fora. Vovó Lourdes não a considerava parte da conversa. Para minha mãe, a qual não estava acostumada a expressar suas idéias, sobrava o “trabalho de esposa”: servir o almoço à sogra e ao marido. “Eles parecem namorados!” nonna Pasqua uma vez observou.

Mas minha mãe não era nem acéfala ou fraca. Sua primeira e única crise aconteceu quando estava grávida de mim. Vovó Lourdes havia estado em casa naquela tarde e a perturbou enormemente. Após ela sair, minha mãe não pôde mais engolir à força seus sentimentos. Esgotada, ela caiu em prantos. Quando meu pai chegou aquela noite ela lhe contou tudo o que pensava sobre sua mãe, o quanto ela era ciumenta, arrogante e controladora. Enfim, o quanto ela era insuportável.

Ele ouviu e a confortou, acalmando suas lágrimas. Ele acreditava que sua mãe era desafortunada com os homens, por isso triste e só, enquanto que minha mãe tinha sorte e era forte, não percebendo, desta maneira, a potência do comportamento opressivo de vovó Lourdes. Em nome da harmonia, ele pensava que sua mãe tivesse que ser aceita do jeito que era, e agradada porque, afinal, como ele genuinamente acreditava, isto não custava muito. Entretanto, daquele momento em diante ele evitou toda possível fricção entre as duas mulheres.

Minha mãe percebeu que estava por conta própria e decidiu mudar de tática. Tomou distância da sogra e todas as vezes que se encontravam inventava desculpas para não estar disponível. Falava pouco e fazia alguma outra coisa. Quando eles tinham que ir visitar vovó, minha mãe não ficava por perto deixando que os dois conversassem entre si.

Após meu nascimento as coisas pioraram, porque vovó Lourdes intervinha intensivamente. O clima de competição que surgiu era o que minha mãe mais detestava.

Mas meu pai percebeu que a situação estava realmente ruim e diante das constantes interferências de vovó, numa ocasião em que ela chegava à nossa casa, a abordou ainda na calçada e lhe disse: "Olha mãe, se a senhora continuar interferindo e fazendo intriga na minha familia eu CORTO com a senhora." Vovó assustou-se e incomodou-se. Dalí em diante, ela teve que fazer o esforço de conter sua avassaladora tendência a intrometer-se.

Mesmo assim, minha mãe se sentiu aliviada quando meu pai anunciou que iria procurar por um novo trabalho em São Paulo. Muitos de seus amigos já havia se mudado para lá, para trabalhar ou estudar.

Era tempo de mudar horizontes e abrir novos caminhos.




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