domingo, 13 de dezembro de 2009

9. Avançando


Adriana Tanese Nogueira

          O nariz dele estava escorrendo. No dia seguinte após seu nascimento, ainda no hospital, André dormia pacificamente em seu berço, mas algo alertou meus pais. André parecia estar resfriado.
          “O negligenciaram.” Disse minha mãe, irritada. “Há poucos funcionários por causa das festas do Ano Novo e eles o ignoraram.”
          Meu pai imediatamente chamou o primeiro médico disponível. O homem observou o recém-nascido e passou alguns medicamentos. Preocupados, meus pais deixaram o hospital.
          Naquele dia, em casa, a vida não parecia muito diferente de antes. Mas logo me dei conta de qual era minha nova situação. No meio da noite fui acordada por um choro agudo. Sobressaltada, me levantei, segurando firme as barras do berço. Com olhos escancardos analisei o quarto. Confusa e assustada, procurei pela razão por que minha calma e gostosa noite tinha sido interrompida. Abruptamente a luz foi acesa, e meus pais entraram correndo no quarto. Dobraram-se sobre o berço ao lado do meu enquanto os gritos estridentes continuavam mais altos do que nunca.
          Então é isso o que significa ter um irmão! O mistério está desvelado. Ele não é feito de ossos, mas de berros.
          Meu esquema noturno mudou completamente. Não estava feliz, mas tive que chegar à conclusão de que não havia nada que eu pudesse fazer para restaurar o silêncio que eu tanto amava. Resignando-me, noite após noite, eu simplesmente deitava de novo, fechava os olhos e voltava a dormir, com ou sem luz e choro.
          André foi diagnosticado com uma rinite alérgica, que meses depois se transformou numa bronquite asmática. Latente ou aberta, a síndrome se prolongou por muitos anos. Ele se tornou o especialista na família em cuidados hospitalares. Anos mais tarde, dei-me conta que se uma agulha poderia me fazer desmaiar, nele provocava um paciente sorriso.
         Uma das primeiras coisas que André aprendeu a fazer foi limpar seu nariz constantemente escorrendo em suas mangas. Quando não irritado por isso, ele era um bebê calmo, gorducho e bonitinho. Em seus olhos, desde o começo, havia um olhar profundo e sério. Tímido, ele observava cautelosamente as redondezas antes de se lançar para fazer qualquer coisa. Sabia se divertir, mas com cuidado.
          Apesar de suas reservas, ele gostava de estar com pessoas. A nonna Pasqua estava no sétimo céu pelo simples fato dele ser um menino. Ela estendia o tapete vermelho para o primeiro bebê homem da família, toda vez que nos encontrávamos. A nonna brincava alegremente com ele, e ele lhe deu maravilhosos sorrisos.
         Estranhamente porém, em relação a nosso pai André expressava um olhar enigmático. Não respondia às tentativas do pai de brincar com ele. Podia até virar a cabeça do outro lado. Ambos meus pais se espantaram. O comportamento de André não tinha fundamento e eles pensaram que iria melhorar com o tempo. Mas isso nunca realmente aconteceu. Ninguém soube de seu segredo, talvez nem ele mesmo. André permaneceu de alguma forma distante e desconfiado de seu próprio pai.
          E quanto a mim, bem, eu acabei me acostumando no sentido bom e naquele mau. No começo não sabia o que fazer com ele. Até que fosse grande o suficiente para poder brincar, oscilei entre dar-lhe beliscões e beijar suas bochechas redondas. Quando finalmente ele foi capaz de ficar sentado, pelo menos podia abraçá-lo. E fiz muito isso, alegremente. Ele mantinha geralmente sua expressão séria. André era meu oposto. Eu fluia como um rio feliz e borbulhante; ele permanecia como um plácido lago de montanha. Eu era movimento enérgico, ele sólida rocha. Meu entusiasmo nunca o conquistou.
          O nascimento de André, no meio de um festa animada, ilustra bem sua personalidade. Quando todos estavam se divertindo, ele fez algo completamente diferente. E sobretudo, agiu sozinho. Tímido e apreensivo, André precisava de um terreno sólido sob seus pés antes de dar um passo a frente. Observava cuidadosamente o ambiente; sua natureza era como a de um jovem cervo, facilmente assustadiço. Talvez esta seja a razão pela qual ele não apreciava a companhia de seu pai, pois este último era um idealista assim como André era feito para firmar os pés no chão. Seu pai estava preocupado com a sociedade e a justiça, enquanto André precisava de um ambiente estável e seguro. Um pensava grande e no geral, o outro sentia fundo e no individual.
          André deu seus primeiros passos em nossa cozinha. De pé ao lado da porta e se segurando nela, ele fitou a geladeira e depois estudou o percurso para chegar lá. Então, moveu-se balançando um pouco, mas autoconfiante. Orgulhoso de si mesmo, alcançou sorridente seu objetivo. Era o dia do seu primeiro aniversário.
          Infelizmente a segurança da qual André precisava iria logo ser posta em risco nos eventos seguintes de nossa vida. Seu nascimento introduziu o ano de 1965. Muitas coisas estavam mudando que iam além do controle da população. Poderosos e distantes personagens seguravam firmemente as rédeas do país em suas mãos, enquanto a inquietação e insatisfação cresciam rapidamente pela nação. Nas cidades, estudantes e intelectuais de todo tipo discutiam assuntos de política. Mas nas regiões pobres do Nordeste explosões de conflito radical pareciam confirmar a necessidade de uma liderança forte.
          “Droga de americanos! Aposto que estão no meio disso. Como poderia o pessoal do Nordeste que mal conhece os jogos políticos dos militares no governo organizar tumultos desse tipo?” disse Jorge, numa das reuniões semanais em nossa casa, na Rua Rio Branco, 83. Ele era funcionário numa das lojas do centro e estudante à noite.
         “Como você pode dizer isso?” replicou Ismael, um marceneiro vindo de família humilde.
         “Porque nos últimos anos, a Emabixada Brasileira emitiu quarto mil visa e recebeu mais três mil pedidos.” Jorge virou-se para o pequeno grupo com uma expressão maliciosa no rosto. “Por que os americanos iriam repentinamente estar tão interessados em vir aqui? E, a propósito, a maioria deles foi para o Nordeste.”
         “Oh, agora faz sentido” Ismael deu um sorrisinho. “A costumeira fachada.”
         “Eles chegam aqui como estudantes e homens de negócio.” Continuou Jorge.
         “Aposto que são da CIA.” Disse Anibal. Ele havia se reunido ao grupo tarde naquele dia, após seu turno no correio.
         “Mas não poderiam fazer nada sem a cumplicidade do governo.” Disse meu pai.
        “Que recebe centenas de milhares de dólares…” Acrescentou Jorge num tom sarcástico.
         “Este é o x da questão.” Continuou meu pai. “Nosso país deveria ser assunto nosso.”
        “Os militares estão se exibindo. Abriram milhares de quilômetros de estrada e hidroelétricas. Também melhoraram a extração de óleo.” Continuou Ismael.
        “Claro. Eles seduzem as massas. Enquanto isso nunca via tanta gente arruinada migrando para os grandes centros. Vivem em barracos – vocês os viram?” Interveio Anibal.
         “Até aqui, em Araçatuba, algo está mudando.” Disse meu pai.
        “Será que vamos ter as favelas que estão sendo construídas em São Paulo e Rio?” Perguntou Anibal com olhar preocupado.
         Uma pausa tomou lugar.
        Minha mãe entrou com um de seus bolos tradicionais. Ela olhou para os rostos desassossegados deles. Eles devolveram o olhar e sorriram.
         “Já estou com água na boca.” Disse Anibal mudando para um tom jocoso.
         “Me fala se gostar. Você pode lever um pedaço para casa, se quiser. Acredito que sua mãe vai adorar comer uma fatia, não é?” Perguntou minha mãe com um sorriso gentil.
         “Posso assegurar que ela vai. Obrigado, Maria.” Respondeu Anibal.
         Minha mãe deixou o quarto enquanto os homens se serviam.
         “Antonio, o que aconteceu com o seu Grupo dos 11?” Perguntou Jorge.
         Alguns anos antes, meu pai havia sido o líder de um dos milhares de “Grupo dos 11”, que Brizola, na época governador do Rio Grande do Sul, havia criado para envolver as pessoas na política. Havia onze pessoas em cada grupo como onze era os jogadores de um time de futebol; estava na hora de jogar o jogo da mudança social.
        “Após o golpe eu dispensei o grupo e pessoalmente rasguei a lista com os onze nomes. Não era mais seguro.” Respondeu meu pai, o último a começar a comer.
       “Fez bem. Vamos ver o que vai acontecer. Há uma forte reação por parte de intelectuais e artistas contra o regime. Se o povo não sabe o que fazer, talvez eles vão conseguir alguma coisa.” Disse Anibal.
        “Não sei. Não está parecendo.” Como fino observador que ele era, Ismael reconheceu os sinais de uma crescente fraqueza social. Sua família era pobre, ele sabia o que era não ter poder.
        “Há muita gente que não se importa com o que está acontecendo.” Disse meu pai. “Vocês sabem os meus dois amigos sírios?”
        “Quem? Os donos da loja de tecidos na avenida commercial?” Perguntu Anibal.
        “Sim. Os encontrei a noite passada na praça. Eu gosto deles, mas eles não conseguiam acompanhar um só de meus pensamentos.” Continuou meu pai.
        “Eles só sabem trabalhar.” Disse Ismael. “Têm uma bonita loja de família de tecidos e nada mais lhes interessa de verdade. Falta-lhes visão.”
       Pensativo, meu pai não respondeu. Por uns minutos, todos se dedicaram à desgustação do bolo.
       Finalmente, meu pai disse: “Às vezes tenho a impressão que democracia é somente uma palavra atrás da qual as pessoas fazem o que querem.”

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