Adriana Tanese Nogueira
“Parabéns pra você, parabéns pra você, nesta data querida, muitas felicidades, muitos anos de vida! Viva Adriana!”
Minha primeira festa de aniversário aconteceu numa bela tarde de final de Novembro. De pé sobre uma cadeira, com olhos brilhantes, estavo na frente de um grande bolo branco retangular com sua solitária vela, simbolizando meu primeiro ano de vida, o mais desafiador e valente para cada um de nós. Do alto da minha posição, usava o vestido que minha mãe havia ternamente feito; um sorriso se abria sobre minhas bochechas cobertas de chocolate. Fitava encantada a sala decorada, tão colorida como as muitas nuanças da cor de pele das crianças convidadas.
Minha mãe, que a gravidez havia modelado na forma de uma esfera, sorria radiantemente enquanto batia as mãos com alegria. Ela parecia exultante. As pessoas acompanhavam. Sua melhor amiga e família estavam entre os hóspedes. Vovó Lourdes sorria com seus lábios finos, os olhos escondidos por trás dos costumeiros óculos escuros. Ela parecia surpresa. Nunca havia organizado uma festa para sua única filha. O primeiro bolo de aniversário de minha tia Rachel foi feito pela sua nova cunhada, quando ela fez 18 anos.
Havia sido um excelente primeiro ano. O amor de minha mãe, aos poucos, trabalhou para quebrar meu ciúmes preocupado com relação ao intruso que se escondia debaixo de sua pele. Dou-me conta hoje que desde o comecinho fui silenciosamente treinada para a aceitação e a tolerância que o amor exige. Foi o exercício de uma vida, que, devo dizer, nem sempre tem tido sucesso. Naqueles tempos, quando estava experimentando meus poderes de uma crianças entusiasta e andante, podia conceder ao intruso em sua barriga, um pouco de espaço. Mas, bom, não tão rapidamente.
A desconfortável sensação da barriga dura de minha mãe alcançou seu cume na noite que passamos no ônibus fugindo de Araçatuba. Minha mãe queria escapar de vovó Lourdes. Meu pai havia deixado a cidade para trabalho sem dizer quando tempo estaria fora. Minha mãe sabia que, como primeira coisa na manhã seguinte, vovó iria chegar em casa para tomar o café da manhã conosco e dar um jeito de comandar sobre nossa vida. Sem meu pai ela se sentia ainda mais autorizada a interferir sobre as escolhas de minha mãe a respeito de como cuidar de mim. Minha mãe estava cansada disso. Portanto, decidiu partir imediatamente. Quando vovó fosse chegar no dia seguinte iria encontrar uma casa vazia e nenhuma explicação. Os oito meses de gravidez não a impediram de pegar o primeiro ônibus noturno para São Paulo.
Assim, lá estávamos as duas, quero dizer, os três: ela, a barriga e eu tentando dormeir num aparentemente reduzido assento de ônibus. A protuberante barriga estava logo entre nós. Como podia ser tão dura se todo o resto nela era suave, como seus olhos e sua voz? Seria ele feito só de ossos?
Quando vovó Lourdes apareceu na manhã seguinte para bater na nossa porta, sobressaltou ao ver que ninguém atendia. Dirigiu-se então para a vizinha do lado para perguntar sobre nós. A moça, amiga de minha mãe, disse-lhe que tínhamos ido para São Paulo. “Aquela italiana!” exclamou em disaprovação vovó Lourdes e caminhou de volta para sua casa, de cabeça alta e nariz empinado.
O final da viagem nos levou direto para a casa de meus avós maternos, no fundo da íngreme ladeira em São Paulo. Foi uma agradável compensação da jornada no ônibus. A atmosfera barulhenta e fragrante da casa deles nos consolou. Meu nonno me deu as boas vindas com um grande sorriso e os braços abertos. Havia um especial magnetismo entre nós. Revistas para crianças e brinquedos estavam disponíveis. Enquanto eu subia e descia as escadas com meu pai atrás, o nonno olhava divertido. Eu era provavelmente a mais vivaz e engraçada criança que ele já havia visto. Em mim corria solta a vida vibrante e calorosa que havia sido oprimida nele e em seus filhos por causa da dureza da sobrevivência.
Seus ternos olhos verdes estavam cheios dos sentidos de uma vida difícil. Rugas na pele bronzeada circundavam seu olhar esmeraldo. O cabelo acinzentado bem penteado estava dividido pela metade na cabeça quadrada e ele tinha bigodes retos. Estava sempre queimado pelo sol tropical sob o qual trabalhava como dono de uma banca de jornal na esquina da avenida principal perto de sua casa. Seu charme era valorizado pela cuidadosa escolha da roupa. Não é preciso ter dinheiro para ser elegante. Ele era genuinamente italiano; a aparência era importante.
Uns dias com seus pais deram à minha mãe a necessária recuperação dos sentimentos desagradáveis que sentia para com vovó Lourdes. Meu pai, que também estava em São Paulo, juntou-se a nós e em seguida todos voltamos para Araçatuba numa disposição melhor de quando tinhamos chegado. Desta vez a viagem foi mais relaxante. Ter meu pai no ônibus foi de grande alivio para mim.
O Natal se aproximava e meus avós junto o tio Leonardo vieram para passá-lo conosco em Araçatuba. O calor estava quase insuportável, mas pessoas simples reclamam pouco. Eles ajudaram minha mãe tomando conta das atividades ordinárias da casa e cozinhando.
Na tarde da vigília do Novo Ano, minha mãe foi para o salão de cabelereiro de sua amiga e minha madrinha. Era um dia movimentado no salão entre mulheres batendo papo e as funcionárias correndo para cima e para baixo. Minha mãe estava fazendo seu cabelo quando as primeiras contrações anunciaram que André estava a caminho. Sua experiência anterior havia lhe ensinado que não precisava se apressar e ela terminou o que havia começado. Em seguida, calmamente caminhou de volta para casa com seu belo cabelo feito.
A mala estava pronta e todos esperaram, comeram e beberam. Sendo a primeira neta da família eu era o centro das atenções. Minha natureza alegre dava-lhes o divertimento que queriam. Brinquedos me interessavam, mas eu preferia a interação com as pessoas e jogos como esconde-esconde que me excitavam muito.
Para o Reveillon cores brilhantes, fogos de artifício, música e dancas estavam em todo lugar. Nesse rito de passagem, vestidas de branco, como manda a tradição, as pessoas dançavam e se divertiam em buates e nas ruas onde bandas tocavam. Enquanto a festa estava em seu maior pique, meu irmão André silenciosamente abria caminho para entrar nesse mundo. Perto da meianoite, minha mãe sentiu que estava na hora de ir e ela e meu pai correram para o hospital.
Infelizmente, o médico de confiança estava comemorando em algum lugar. Um colega desconhecido tomou seu lugar. Minha mãe sentiu-se incomodada em ter um estranho examinando-a. O hospital estava quase vazio e o sentimento de ter sido abandonada pesou em seu coração. A grande festa fora da janela era distante e desinteressante comparada àquilo que o nascimento de seu segundo filho significava para ela.
Deitada na cama no quarto de hospital, minha mãe sentiu-se só. Entre uma dolorosa contração e outra, meu pai prestava atenção na corrida de São Silvestre que saia de seu pequeno rádio. Mas minha mamãe concentrou-se no parto enquanto as horas passavam e a noite se aprofundava.
Às quatro e meia da manhã, ela foi levada à sala parto. Desta vez foi mais fácil; ela estava menos assustada. Meia hora mais tarde, após as costumeiras intervenções médicas, André nasceu e foi levado até ela. Aliviada e alegre, ela olhou para ele. Os longos nove meses de calor, peso e meias elásticas estavam terminados. Ela havia finalmente recebido seu prêmio: um belo, gorducho, forte e muito branco bebê. Com ele ela sentiu que sua maternidade estava completa.
No lugar de seu peito e corpo macio, André encontrou-se sobre uma fria mesa e chorou. As enfermeiras pareciam não notar o incômodo dele. Elas curtiram a curiosa crença segundo a qual o xixi do recém nascido é considerado como dando sorte para o começo do ano. André, que certamente nada sabia sobre crenças e hospitais e xixi, longe do consolador bater do coração de sua mãe, gritou mais forte ainda e fez xixi, como elas esperavam. Rindo, as enfermeiras esticaram suas mãos sob sua fonte.
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