Adriana Tanese Nogueira
A vida era abençoada. Eu tinha pais amorosos e vivia numa ensolarada e gostosa cidade do interior. Meus dois adultos de estimação eram jovens demais para terem florescido em sua maturidade. Entretanto a juventude lhes deu seus dons: autoconfiança e entusiasmo para ele, serenidade e inocência para ela.
Tendo sido pobre a vida inteira, minha mãe ganhou finalmente sua primeira boneca: eu. E devotou-se a desdobrar as alegrias da maternidade; ela cuidava e embelezava. Comigo no carrinho, passeávamos até a avenida comercial. La prestava atenção às recentes tendências na moda infantil expostas nas boutiques. Na máquina de costura, ela as copiava. Sua vida crescia entre ternas cores e combinações bonitas, enquanto sua personalidade se aprofundava. A maternidade a fortaleceu. Criar e alentar iriam ser a principal missão de sua vida, dar à luz filhos não é suficiente.
Nenhum descanso lhe foi reservado após meu nascimento. Eu estava com quarto meses quando ela ganhou mais um bilhete vencedor e deu adeus ao seu corpo de adolescente. A magra e pálida garota estava sendo substituída por uma jovem mulher de 23 anos em sua segunda gravidez. A tradição de sua família sustentava que a amamentação iria protegê-la. Afinal, minha avó Pasqua engravidou a cada dois anos, após ter interrompido a amamentação. Mas isso não funcionou para minha mãe. Ela estava amamentando, não tinha menstruação e, mesmo assim, lá veio ele. Meu irmão André estava a caminho.
Eu me pergunto, não poderia ele ter esperado um pouco mais? Para quê toda essa pressa? Me dê um tempo, mano. Não, ele se impôs numa corrida para aterrizar neste planeta. Tudo bem, é verdade que eu também demonstrei impaciência. Eu me enfiei quando minha mãe era ainda virgem, eles nem tiveram uma completa relação que lá estava eu. Mas, bem, eu sou a primeira. Uma vez aqui, eu sou a dona e comando. Ele não me pediu licença por isso vamos deixar uma coisa bem clara: aqueles dois aí, a mulher magnífica na qual barriga você está e o homem bonito do lado dela são meus. Sacou, mano?
Algo volumoso ganhava espaço entre o corpo de minha mãe e o meu. Pensamentos precisam de tempo para se desenvolverem, mas sentimentos são espontâneos e inequívocos como instintos. Eu percebi que meu domínio estava sendo invadido. Esta coisa se espraiou nos meses seguintes, enquanto minha mãe crescia, logo no momento em que eu estava expandindo meus poderes.
A vida chamava. Podia senti-la brilhar em meus olhos e pulsar em meu cérebro, mãos e pernas. Eu queria conquistar o mundo, eu queria ser. Aos 9 meses e 20 dias ganhei minha liberdade. O gigantesco, porém ordinário, feito foi conquistado: eu andava por mim mesma. Era Setembro, o começo da primavera, e eu estava pronta para ir.
A curiosidade era a minha deusa. Eu demandava saber, ver, agarrar e saborear. Investiguei a casa, levantei-me nas pontas dos pés e alcancei e espiei cada móvel. Todos os delicados ornamentos de minha mãe foram observados, puxados e a maioria deles encontrou fatalmente o duro chão, quebrando-se em pedaços. Minha mãe me perdoava todas as vezes.
O jardim da frente da nossa casa era um dos meus lugares favoritos. Correndo para fora, eu explorava a natureza verde e marrom. Mexia no solo e desgustava a boa terra com seus minerais. Minha purista avó Pasqua, quando por perto, pulava para me arrancar do chão e lavar minhas mãos e boca. Ela nunca descobriu o excitante sabor da relva.
Nos finais de semana dávamos passeios agradáveis pela cidade. Meu pai atraia amigos e conhecidos. As pessoas vinham dizer oi e familiarizar-se com o pequeno fruto daquele que eles chamavam “um belo casal”. Minhas bochechas rosadas abaixo dos grandes olhos verde-cinza e minha característica expressão vivaz me tornaram muito popular. Sempre bem vestida, eles diziam que eu era adorável. Mas não era uma estátua. Meus pais precisavam manter um olho em mim, pois minhas rápidas pernas me faziam desaparecer num piscar de olhos.
Movimento era minha palavra chave. Não é uma coincidência que as primeiras coisas que eu aprendi foram carro e cavalo. Eu e meu pai costumávamos dar passeios à tarde, permitindo a minha mãe descansar. Desde aqueles dias, nos somos os caminhadores da família. A praça florida perto de casa era nosso lugar preferido. Lado a lado, caminhávamos, minha mão segurando seu dedo indicador. Cavalos puxavam carruagens e carros passavam. Me emocionavam. Estar perto de cavalos sempre fez meu coração sentir-se nostálgico. Eu sentia sua falta antes mesmo de ter jamais tido um.
Se não podia cavalgar, eu porém podia usar minhas pernas e isso me colocava no comando. A liberdade começa com as pernas. Graças a elas eu era o próprio movimento. Podia correr, pular e aterrizar sobre meus pés. O estágio seguinte da autonomia é explorar o território. Logo expressei meu espírito independente. Eu saia de casa e atravessava o jardim da frente, abria o portãozinho e descia o degrau segurando-me à grade de ferro. Após fechá-lo atrás de mim, corria para a vizinha do lado brincar com seus filhos. A habilidade de ir por aí e sentir-me no comando me dava a excitante emoção de estar viva.
O pequeno escritório caseiro de meu pai também foi investigado. Contra a parede, havia prateleiras cheias de medicamentos, amostras da empresa farmacêutica para a qual ele trabalhava. As garrafas e pacotes coloridos me atraiam. Abri tudo o que estava ao meu alcance e experimentei algo cremoso, adocicado e branco que me agradou muito. Posso ainda sentir seu sabor. Apreciei esses achados até o dia em que a porta foi trancada.
Meu pai costumava me segurar no colo e dançar comigo. Ele era um homem feliz naquele tempo. Amava a música brasileira. Ritmicamente balançava comigo e cantava suas canções favoritas. Eu não sabia o quanto esta experiência deixou uma abençoada marca em minha alma até me encontrar, 30 anos mais tarde, fazendo o mesmo com minha filha bebê. Sentia-me tão cheia de alegria como da primeira vez. Vendo seus olhos brilharem e seu grande sorriso eu soube que ela estava feliz também. Então me dei conta das boas memórias que carregava comigo.
Na época em que desenvolvi meus poderes de independência, minha mãe foi ficando grande demais. Ela não podia dobrar-se, agachar-se e levantar-se de novo e de novo. Um dia uma mulher com a filha adolescente passou por lá. Ela procurava um trabalho para a filha. Minha mãe gostou da jovem e a contratou. Eu tinha então uma nova companheira de brincadeiras. Ela ajudava minha mãe com os deveres de casa, mas sobretudo ficava comigo. Minha mãe podia descansar mas nunca nos deixava sozinhas.
De vez em quando alguns amigos do meu pai vinham visitá-lo. O pequeno grupo de jovens conversava no escritório dele. Política era o assunto principal, como poderia ser futebol para outros, pensou minha mãe. Educados e gentis, a maioria se conhecia desde a infância. Havia trabalhadores humildes, donos de loja e estudantes. Meu próprio pai era também um estudante. Ele frequentava o curso noturno de contabilidade.
Minha mãe não sabia nada de política, mas iria aprender rapidamente. No ano anterior, grávida de mim, a campainha da porta tocou. Um policial estava procurando por meu pai. Sobressaltada, ela perguntou a razão da visita. O homem não quis dizer. Deixou uma mensagem porém. Meu pai tinha que se apresentar à polícia. Do outro lado da rua, uma vizinha observava e veio correr para conversar com minha mãe assim que o policial se foi. Ela disse que a polícia havia estado em sua casa também. Seu filho era um dos colegas de classe de meu pai. Ela falou sobre o movimento estudantil que estava crescendo e começando a levantar sua voz.
Quando meu pai voltou aquela noite, minha mãe lhe disse que estava confusa a respeito da desagradável visita: “O que significa?”
“Deve ter sido aquele professor antipático!” Ele respondeu. “Eu discordei dele na classe. Ele estava dizendo umas bobagens sobre Cuba. Meros preconceitos demagógicos. Deve ter me denunciado à polícia.” Me pai estava incomodado mas não realmente preocupado.
“Nossa vizinha”, continuou minha mãe, “veio aqui logo depois que o policial saiu e ela me falou do movimento estudantil. O que está acontecendo?”
“Está havendo um aumento da consciência social. As pessoas querem justiça.” Ele respondeu. “Você não viu quanta gente pobre e miserável há por aí?”
Sim, minha mãe havia notado, impossível fechar os olhos. A pobreza era um trato marcante do Brasil, havia gente pedindo esmola ou vivendo nas ruas, crianças sujas e sozinhas, negros fortes sem trabalho. Sua tradição familiar lhe havia ensinado que uma pessoa é pobre porque não trabalha, e não trabalha porque é preguiçosa. Esta era a simples equação que ela conseguia imaginar.
“Não é tão simples, Maria.” Meu pai disse. “As coisas são feitas para manter esta situação. É o resultado de uma organização social injusta. O sistema politico representa os interesses de uma pequena parte da população. Um diminuto grupo de homens ricos governa o país. As coisas precisam mudar. Não é justo, para nós, para nossos filhos, para todos.”
Ele falou clara e calmamente, como de costume. Ela admirava a lucidez de suas palavras. Daquele dia em diante minha mãe havia refletido sobre essas novas idéias e elas faziam sentido em sua cabeça.
É por isso que, quando os amigos de meu pai chegavam em casa, ela lhes dava as boas vindas. Comigo trotando ao seu lado, ela gostava de foi preparar um refresco para os jovens homens que falavam de política. Ela gostava deles.
Eu dei meus primeiros entusiasmados passos no mundo junto aos primeiros largos passos de meu pai no envolvimento politico e social, enquanto a barriga de minha mãe crescia e seus olhos se abriam. Nós éramos uma família engajada.

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