sexta-feira, 20 de novembro de 2009

6. Nascida em tempos de mudança


Adriana Tanese Nogueira


“Maria, empurra! Vamos, Maria, empurra de novo!” A carne em volta de suas unhas estava ficando azulada. Fazendo uso de toda sua força, Maria esforçava-se para dar à luz seu bebê. Muitas horas haviam se passado desde que ela tinha deitado sobre aquela cama.

Antonio havia passado a noite ao lado dela. Espantado perante o processo de parto, ele não sabia o que fazer e se sentiu frustrado diante do sofrimento dela. Dona Lourdes, sua mãe, dava orientações. Ela queria ajudar, mas se Maria pudesse ter opção, não iria escolher sua sogra para dar-lhe suporte naquele momento crítico.

Após o começo entusiasmado em sua nova cidade do interior, Maria deu-se conta de que a realidade não era como esperava. O calor de Araçatuba era insuportável, sobretudo para uma mulher grávida, e a mãe de Antonio revelou-se se intrometida. Dona Lourdes tratava seu filho com cerimônias, esperando de Maria o mesmo. Assim, ela frequentemente se inseria na relação deles comentando as respostas e os modos de Maria.

Quase todos os dias Dona Lourdes passava pela casa deles, buscando receber atenção, uma bela xícara de café e biscoitos. Ela gostava de ser mimada tanto quanto de comer as delícias culinárias de Maria. Considerando seu filho um homem importante, ela desaprovava se Maria o desagradasse por qualquer motivo. Do lado dele, Antonio não procurava por reverências, mas ele também tentava não se opor à mãe.

Maria não gostava disso. Ela havia sido educada para aceitar o lugar tradicional da mulher, que era a casa e a família, mas ela não era boba. Acostumada a uma vida mais prática e com os pés no chão ela não podia suportar todos aqueles rituais e o tempo gasto em torno de agradar quem quer que fosse. Ela era uma mulher carinhosa, mas seu comportamento amoroso não podia ser uma obrigação. Sobretudo, Maria reagia contra alguém que se colocava como superior a ela.

Dona Lourdes tinha a expectativa de encontrar em sua nora a mesma atitude passiva que a mãe de Maria tinha. Mas estava errada. Maria logo parou de dar-lhe balas e deferências. Quando Dona Lourdes chegava, Maria saia de casa para dar uma volta ou ia para seu quarto fazer qualquer coisa que não fosse ficar perto dela para servi-la e dar-lhe o melhor de sua cozinha. Dona Lourdes queixava-se da ausência de Maria com Antonio. Ele pacientemente ouvia-a mas não pedia para Maria estar presente. Ao invés disso e no lugar de sua esposa, ele oferecia à sua mãe um café e os doces e pães que Maria ou Pasqua havia preparado. Quando Dona Lourdes ia embora, Maria reclamava com Antonio de sua mãe exigente. Ele tentava acalmar Maria e explicava-lhe que eles deviam ser tolerantes e compreensivos, pois, ele dizia, Dona Lourdes não tinha marido. Não convencida, Maria achava que Antonio estivesse do lado de sua mãe.

Agora, no hospital, Maria gostaria de ter sua mãe perto; qualquer pessoa de sua família iria fazê-la sentir melhor.

Ela agarrou por trás a cabeceira de ferro da cama. As veias pularam de seus braços e o rosto tensionou-se. Maria estava fazendo o seu melhor para terminar o doloroso processo de parto. Ela navegava, como uma heroina solitária, pelas misteriosas fronteiras que separam a vida de sua secreta origem. Seu medo e desconhecimento do parto criava tensão que endurecia os músculos, portanto se corpo não podia soltar-se para a confiante entrega que o parto é. Duas forças opostas assediavam o canal de parto; o instinto de auto-proteção que comanda para encolher e congelar se opunha à urgência de soltar para expandir, favorecendo a passagem do bebê. Além do mais, Maria estava bloqueada numa cama. Suas costas e veias esmagadas debaixo da grande barriga aumentavam sua dor. Ela não podia se mexer, as mulheres haviam de dar à luz deitadas e aquela era a regra hospitalar. A experiência de parto tinha o sabor do tormento, e parecia-lhe demorada demais, entretanto aquelas 12 horas eram o tempo normal para o parto do primeiro filho.

Antonio saiu para esticar a pernas pelo quarteirão. Poucos minutos mais tarde o médico, que havia aparecido de vez em quando para checar a dilatação, decidiu levar Maria para a sala parto.

Era um dia quente de primavera. Não havia ar condicionado disponível. O suor de Maria escorria-lhe pelo seu rosto cansado e pálido. O jovem doutor fez o corte desnecessário. A parte feminina sagrada, que nenhuma faca deveria jamais tocar, abriu-se como uma flor para entregar seu fruto. E lá estava eu, nascida finalmente.

Encontrei-me de repente sobre a dura e fria mesinha onde os bebês são examinados. A prolongada compressão havia deixado seu sinal na roxidão de meu rosto. O vago sentimento de sufocamento que percebi em alguns momentos cruciais de minha vida eu o consigo explicar somente através de minhas condições de nascimento. Quando uma grande mudança precisa acontecer, uma insuportável pressão se abate sobre mim até que, como por milagre, minha luta vence e o fluxo da vida recobra sua soberania.

Observada pelo médico, eu rolei meus olhos em todas as direções. Onde estava? O cordão umbilical havia sido cortado às pressas, deixando-me confusa. Ele era minha conexão à segurança e ao amor que se chama Mãe. Logo, aqueles primeiros pavorosos minutos foram seguidos pelo mais feliz dos finais quando eu senti meu corpo sobre o de minha mãe e minha boca pôde agarrar o seio dela. O mundo voltou à paz naquele 23 de Novembro de 1963.

Minha mãe sorriu para mim. Jamais ela poderia ter imaginado que pudesse ser tão maravilhoso. Ela contemplou o que havia acabado de sair de seu ventre. Ela tinha uma bebê, uma perfeita e linda bebê que era somente dela. Dor e fatiga desapareceram.

Um pouco mais tarde meu pai voltou. Ele mirou surpreso sua filha deitada ao lado de Maria. Seu primeiro sentimento foi de alivio: Maria estava finalmente sem dores. Então, virou-se para mim, incerto sobre o que pensar. Viu grandes olhos inquietos se mexendo como que tentado apreender a inteiro ambiente à sua volta.

Ele se familiarizou comigo bem rapidamente. Chorei com frequência pelos três dias e três noites seguintes por causa de uma hernia umbilical. Qualquer pequeno lamento levava a um choro mais forte, porque a hernia inchava dolorosamente cada vez que mexia a barriga. Para permitir a minha mãe dormir, meu pai passou aquelas três noites comigo. Antigas fotografias me trazem o eco de sentimentos que minha mente esqueceu, como se a vista pudesse trazer de volta a memória do corpo. Eu imagino seus braços fortes e aconchegantes em volta de mim e minha maravilha perante aquele homem colossal e amigo. Mas a hernia era realmente terrível e todos finalmente encontramos sossego quando uma esperta pediatra enfaixou minha barriga e então meu corpo tomou conta do processo de cura.

Na serena e ensolarada cidade começou minha vida. As roupinhas de bebê e os acessórios que minha mãe havia costurado durante a gravidez foram inaugurados. Cada pequena peça de meu guardaroupa estava impregnada de seu toque maternal. Meu tio Osni deu-me um travesseiro feito das plumas dos patos que ele havia caçado nas semanas anteriores. Minha tia Rachel me exibiu aos amigos do templo Budista que ela frequentava. E finalmente, minha avó Lourdes estava previsivelmente mais presente do que minha mãe teria gostado. Ela queria me levar para passear no carrinho vezes demais.

Mas alguma outra coisa aconteceu. Como uma pequena mosca preta, desagradável mas não ainda realmente significiante, algo além do nosso controle deu seu primeiro leve sinal.

No dia em que nasci, minha tia chegou correndo trazendo as últimas notícias: John F. Kennedy havia sido assassinado no dia anterior. Teve este evento algum efeito sobre a história da América do Sul? Como água de fonte que jorra espontanemente da terra, idéias inovadoras estavam regando aqueles tempos. Kennedy deu voz a um sonho sonhado por muitos.

No Brasil, até então, seus líderes haviam usado a falta de direitos, educação e iguais oportunidades para instrumentos para apertar o controle sobre a população. Era precisamente isso que os cidadãos estavam questionando naqueles tempos. Um despertar social de amplas proporções estava sacudindo antigas estruturas de poder, enquanto o presidente João Goulart movia-se na direção de reformas nacionais. Uma ilustração da época em outdoors o mostra no ato de varrer o lixo político que obstruia o desenvolvimento brasileiro.

O espírito da esquerda inspirava novos projetos e ideias. Rebelliões contra os poderes tradicionais aconteciam até dentro do exército.

Paulo Freire no faminto Nordeste lançava sua Educação dos Oprimidos, um método revolucionário para ensinar a ler e a escrever. Padres, freiras e católicos receptivos criaram a Teologia da Libertação a partir da leitura da realidade política e social do ponto de vista dos Evangelhos. Eles concluiram que a injustiça era um pecado.

Um novo espírito preenchia o ar.

Enquanto isso, na minha pacífica cidade do interior, eu começava a distinguir os arredores. O mundo estava ficando mais claro e immensamente interessante. Não mais visões fora de foco, eu podia agora olhar direto nos olhos dos meus amados pais. Eles eram tão fascinantes como eu poderia conjecturar no alvorecer de minha imaginação.

Estava com quatro meses experimentando essas maravilhas quando o mundo deu uma repentina curva para direita. Um golpe de estado no dia 31 de Março de 1964 colocou o país de cabeça para baixo. Na calada da noite um governo militar tomou o poder. João Goulart fugiu junto à sua equipe.

As pessoas acordaram na manhã seguinte num mundo direferente. No começo, os generais disseram que seria um período provisório. Mas não foi. De cima uma rede foi jogada e qualquer mente que ousasse pensar autonomamente foi dobrada e violentamente silenciada.

Mais obscuras moscas zumbindo perturbaram meu mundo. Eu não podia vê-las, porém. A inocência da idade abanou-as para longe – mas não por muito tempo.

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