AVISO

Publico neste blog os primeiros parágrafos de cada capítulo conforme os escrevo. Esta é uma história longa. Todos os fatos são verídicos. Dialogos e detalhes são reconstruídos a partir do que sei e coletei em testemunhos. Há muito ainda a ser contado. A história inteira será publica somente daqui há um ano e estará disponível em livro. Para quem quer saber mais de mim é só ir para www.psicologiadialetica.com

41. Inescrutável destino

Adriana Tanese Nogueira
   
    Era domingo de manhã. A família estava na praia, misturando-se à multidão de pessoas que tomavam sol, comiam, entravam na água e se divertiam num final de semana de céu límpido. Mas Antonio e Maria não podiam juntar-se em espírito à atmosfera relaxada daquela gente. Apesar de brincar e conversar com as crianças, sua atenção estava presa às redondezas. Quando dirigia-se aos filhos, o casal se mostrava sorridente e tranquilo, para volta e meia lentavar os olhos e inspeccionar os imediato arredores. Tudo parecia quieto, ninguém prestava atenção neles, algumas crianças se aproximavam para dividir um brinquedo ou ajudar a cavar o buraco na areia. A despreocupação geral, porém, era para Antonio e Maria somente uma miragem que eles não podiam compartilhar.
    Estava quente, o sol alto no céu anunciava o meio dia. Os estômagos roncaram, “Está na hora de almoçar,” disse Antonio, pondo-se de pé.
    Maria concordou, se levantou e chamou as crianças, “Vamos tirar essa areia do corpo? Vamos entrar na água?”
    Foram todos para a água, ainda fresca mas não tão transparente como umas horas antes. Mergulhar nela proporcionava uma sensação de alivio e prazer. Leve e suave na pele, lavava tudo, menos a tensão que engesssava suas vidas.
    “Vamos, vamos queridos,” Maria apressou os filhos, “está na hora de ir embora.”
    Enxurgaram-se o melhor que puderam. Apesar dos grãozinhos de areia aqui e ali sobre a pele, se vestiram. De pés cheios de areia enfiados em chinelos e com roupas semi molhadas no corpo, a família deu as costas à praia lotada e caminhou em direção à rua.
    “Não tem muita coisa em casa para comer,” disse Maria caminhando ao lado de Antonio e segurando um filho em cada mão.
    “Sei. Vamos ao restaurante. Tem um aqui perto que não é caro. Espero que encontremos um lugar para sentar.”
    Avistaram o estabelecimento de longe e viram que algumas das mesas da calçada estavam livres. Adiantaram o passo para ter certeza de conseguir uma. Logo, o garçom chegou. Como sempre, ordenaram só três pratos. Antonio evitava o mais possível qualquer despesa extra, uma vez que estava usando dinheiro dado-lhe pela VPR. Apesar desse pequeno fundo ser destinado à sobrevivência da família, Antonio tomava cuidado para não disperdiçar o dinheiro. Três pratos era o que a família de cinco pessoas comia.
    “Essa situação está se arrastando demais,” disse Antonio enquanto dividia a comida.
    “Faz um mês que estamos aqui,” respondeu Maria, distribuindo os pratos entre as crianças.
    “Não é seguro ficar parado tanto tempo no mesmo lugar.” Antonio sacudiu a cabeça. “Temos que conseguir sair daqui.”
    Maria parou e olhou para ele, sem palavras. Os músculos do rosto estavam tensos. Apesar de seus gestos condensarem em si controle e calma, seu coração estava agitado. Maria arraigava-se no cuidado e na precisão que ela dedicava aos afazeres diários e às crianças, exorcisando, desta forma, o outro aspecto de sua realidade. Eles não tinham mais uma residência para a qual voltar, sua casa se resumia a dois sacos de lona enrolados onde carregavam seus poucos pertences. O dia de amanhã era inescrutável e a vida corria em constante perigo. Agora, as palavras de Antonio atiçaram a sensação apavorante de estar presos, num refúgio que pode ser descoberto pelo inimigo a qualquer hora. “Temos que conseguir sair daqui” pressupunha que eles não estavam conseguindo ir adiante, estavam bloqueados como presas caídas naquelas armadilhas que são buracos no chão. Parecem estar seguras somente até que alguém as encontre.
....

42. A floresta

Adriana Tanese Nogueira

    Uma parede verde escura feita de árvores e arbustos estava defronte a nós. De pé, me segurando nos dois assentos da frente, eu me dei conta da floreta e de sua intricada rede de folhas e galhos, de muitas formas direções. No entardecer, ela parecia misteriosa. A fitei. Não tinha palavras para expressar o que sentia, mas o conhecimento de que era nosso destino se unia com um impulso interno para ir até ela. Senti-me chamada.
    Estávamos estacionados numa praça de terra batida que fazia fronteria com a floresta. A estrada continuava adiante dividindo a barreira esmeralda em duas metades. Nenhum sinal humano era visível. Mais a observava, mais aquele mato parecia extraordinariamente interessante. Não podia esperar para mergulhar nele, adentrar longe com minha família e sumir da vista dos outros. Enquanto meus olhos fixavam a floresta, meus ouvidos seguiam cada palavra da conversa que minha família estava tendo.
    “Vou fazer umas compras,” disse meu pai, abrindo a porta do veículo.
    “É seguro parar aqui?” Sentada no banco da frente, minha mãe lançava olhares à direita e à esquerda.
    Não dava para ver vilarejos ou mesmo casas isoladas por perto. Algumas poucas pessoas caminhavam, seguindo seus próprios negócios.
    “Não se preocupe, Maria. Nós vamos ficar com você,” tio Osni retrucou, tocando o ombro dela com a mão.
    “Toninho, não demore,” ela disse, olhando-o.
    Meu pai fez sim com a cabeça e o vi virando as costas para nós e caminhando na direção da fileira de pequenas e modestas lojas no fundo da praça. Estava ficando escuro. A figura dele desapareceu. 
...

40. Senhoras e senhores, o DOPS - Parte III

Adriana Tanese Nogueira

        Considerando que ela havia sobrevivido a um longo interrogatório no DOPS, Rachel sentiu-se aliviada. Podia voltar a viver em sua casa, na Alameda Lorena, sem se preocupar em escapar de ninguém. E, a propósito, não havia mais policiais vigiando a residência.
    Terão eles desistido? Perguntou-se Rachel, puxando a cortina da janela para conferir mais uma vez. A calçada estava vazia. Alguns carros passavam na rua. Ela voltou à mesa.
    “Eba! Ninguém lá fora!” Ela alegrou-se e se sentou à mesa.
    “Até que enfim!” Respondeu Dona Lourdes, tomando um gole do seu café com leite. “E o Toninho? Quando ele vai aparecer? Você sabe de alguma coisa, minha filha?”
    “Não, mãe. Não faço idéia de onde ele esteja. A organização deve cuidar dele. Ele vai dar notícias, não se preocupe. O Toninho não é bobo.”
    “Espero que ele esteja bem, estou muito preocupada.” Dona Lourdes suspirou. “E o Osni, onde está ele?”
    “Também não sei, mãe. Mas o único perigo que ele corre é levar um soco na cara por estar namorando a garota de alguém.”
    Dona Lourdes deu uma risadinha, “Todos o papel hygienic Enfurecida de esperma que eu já limpei voltando para casa! Ele é um safado! Safado charmoso, devo dizer…”
    “Mas ele deve aparecer logo,” cortou Rachel, mais prática, “ele vai estar com fome. Mãe, mudando de assunto, semana que vem é Carnaval. O DOPS falou que era para ficar às ordens aqui em São Paulo, mas Carnaval que presta só é no Araçatuba Clube, e com os meus amigos.”
    “Verdade. Eu também quero ir para Araçatuba.”
    “E imagino que o Osni vai querer fazer o mesmo.” Disse Rachel, pensativa. “Sabe de uma coisa?” Ela falou após um momento, “Vou voltar ao DOPS e pedir permissão para ficar fora da cidade durante o Carnaval.”
    “Bem pensado, minha filha.” Sorriu-lhe Dona Lourdes, “Volta lá. Eles não devem criar objeções, vão saber para onde vocês vão e quando voltam.”
    “Certo. Não deve ser difícil conseguir a autorização.”
   
    Efetivamente, sem questionar, o DOPS deu permissão para Rachel e Osni saírem de São Paulo no sábado de Carnaval e voltarem na quarta feira de cinzas. Contentes com a sensatez demonstrada pelos policiais, a família carregou sua nova Kombi, com bagagem, cachorro e empregada e enfrentou as seis horas de viagem para Araçatuba, cidade que continha em si suas melhores recordações.
    As quatro noites de festa esgotaram as energies dos dois irmãos.
    “Não vejo a hora de me esticar na minha cama e ficar lá até amanhã,” disse Osni, no volante, bocejando.
    Todos estavam ansiosos para chegar em casa e ter uma boa longa noite de sono. Quando o sobrado na Alameda Lorena estava visível, eles se endireitaram prontos para entrar em casa e ir para suas camas.
    Dona Lourdes inseriu a chave na fechadura.
        “Oh, meu Deus!” Ela exclamou, observando a porta que se abria sozinha. 
....

39. Senhoras e senhores, o DOPS - Parte II

Adriana Tanese Nogueira

    No dia anterior, sua mãe havia lhe dado o endereço do advogado, assegurando-lhe que ele geralmente ficava em seu escritório pelas manhãs. Rachel preferiu não ligar, pois o telefone já não era mais um instrumento seguro de comunicação desde que seu irmão estava sendo procurado pel o DOPS. Dona Lourdes concordou e ambos confiaram nos hábitos do Dr. Jaime Leonel. Assim, como primeira coisa na manhã, Rachel saiu de casa pulando pela janela de trás, estando a porta sob a indesejada vigilância dos agentes do DOPS.
    Como esperado, o Dr. Leonel prontamente atendeu Rachel. Entrando na sala, ela o avistou entre papeis e jornais, enquanto tirava os óculos e a comprimentava, sorrindo cordial. Aliviada por estar lá, Rachel se sentou numa das cadeiras na frente dele e seriamente começou a lhe contar sua história. Como primeira coisa, ela foi intoduzindo algo sobre sua posição política, para checar as reações do advogado. Mas ele fez sim com a cabeça, ouvindo-a atentamente. Encorajada, ela continuou, entrando mais fundo em sua história. Finalmente, ela chegou na parte alarmante: ser seguida pelo DOPS. Após ter contado os eventos do dia anterior, ela parou e esperou ansiosa por uma resposta.
    Dr. Leonal permaneceu em silêncio. Olhou para a janela aberta e ficou nessa posição por um tempo, como se estivesse em profundos pensamentos. Então, voltou-se para Rachel, e disse, “Você precisa se entregar ao DOPS.”
    Rachel arregalou os olhos.
    “Fique calma, Rachel,” ele continuou com voz suave. “Vamos raciocinar  juntos. Você não fez nada, certo? Então, o que faria um honesto cidadão nas tuas condições? Entende?”
    Ela fez sim com a cabeça.
    “Você, portanto, se apresenta ao posto deles, e lhes diga que você soube que a estão procurando.” Ele estudou o rosto de Rachel e não vendo sinais de reação, continuou, “Se você continuar se escondendo irá acirrar a ferócia deles. Respire fundo e vá lá. Você não está envolvida nas atividades políticas de teu irmão, está?”
....

38. Senhoras e senhores, o DOPS - Parte I

Adriana Tanese Nogueira

    “Merda,” Rachel sussurrou espiando pela janela, “Têm dois idiotas lá fora.”
    Os homens, de terno escuro, usando óculos de sol e chapéu, e fazendo de conta que estavam casualmente parados na calçada, na verdade estavam vigiando as redondezas, cada um olhando numa direção diferente. Ela sabia quem eram. O ar de casualdade fingida não podia enganar uma pessoa com uma quantidade normal de neurônios no cérebro, apesar de, ela suspeitava, eles se acreditarem invisíveis. Os dois indivíduos vestidos daquela forma ridícula em pleno verão, fazendo nada numa manhã em horário comercial, e, de vez em quando, lançando olhares para sua casa só podiam ser agentes do DOPS, esperando para pegar, a qualquer hora, Antonio, ou um de seus irmãos.
    “Pro inferno eles,” disse Rachel com raiva controlada.
    Lentamente, ela soltou a cortina, e olhou com anseio para sua cama. A pilha de roupa suja precisando ser substituída com a limpa jazia tristemente num canto. Ela desenrolou a toalha e rapidamente se vestiu. Sentindo-se exausta, se jogou sobre o lado livre da cama, desejando tirar um cochilo. Ao invés disso, ficou fitando o teto. Um profundo e irritado suspiro escapou de sua boca. A consciência da situação lá fora não podia ser postergada, apesar dos olhos sonolentos. O que fazer? 
    Uma semana tinha passado desde que Antonio os havia alertado sugerindo para se esconder. Ela havia dormido cada noite numa casa diferente. São Paulo era uma cidade tão grande que permitia a qualquer um desaparecer, como uma agulha num monte de feno. Osni devia estar em algum lugar que ela desconhecia. Ele tinha suficiente namoradas para nunca estar sem uma opção para passar a noite. Não tinha do que se preocupar com ele. Os amigos dela a havia recebido de braços abertos sem questionar, sendo aquela também uma oportunidade para eles estarem junto. Entretanto, não é nunca como estar em casa. Em particular, o próprio banheiro é um luxo que nenhuma casa de amigos pode oferecer. Rachel precisavam de um longo e refrescante banho e, por isso, havia voltado para casa nas pontas dos pés, às primeiras luzes do dia.
    Agora, com os dois babuínos em preto lá fora ela não poderia sair da porta da frente, e bufou. , ela pensou cedendo à única solução, vou ter que pular pela janela de trás.
    Mas até quando continuaria escapando?
....

37. Não quero te perder

Adriana Tanese Nogueira

    Apesar de ser uma manhã de domingo, o centro de São Paulo estava movimentado. Antonio dirigiu com atenção. Era a primeira vez que ele se mexia abertamente na cidade após ter se tornado um homem procurado. Sentiu-se nervoso mas tentou não parece nada mais do que um indivíduo indo visitar sua família. Lembrou-se da foto no pôster da polícia. Ele parecia gordinho lá, diferente de como ele realmente era. Acreditava que as pessoas não iriam reconhecê-lo. Além disso, o que faria um suposto terrorista numa rua elegante da cidade? Somente alguém maluco. Ou ousado o suficiente para confiar em sua sorte. Ou em seus instintos. Este era seu caso. Ele sentia de alguma forma irracinal que podia assumir esse risco. Sua voz interior o instigava a ser audaz. Que estivesse certa ou não, seus irmãos precisavam ser avisados, pelo bem deles. Antonio não queria que nada de ruim lhes acontecesse.
    O sobrado de Rachel estava localizado na Alameda Lorena, uma rua residencial situada perto de charmosas butiques e joalharias. Antonio reconheceu o edifício à sua esquerda. Tudo estava tranquilo, os passantes pareciam inócuos e nenhum carro suspeito estava parado nas imediações. Sua confiança se fortaleceu. Agora, era uma questão de ser rápido com aquilo que tinha que fazer.
    Ele estacionou uns quarteirões mais para frente e procurou um orelhão.
    “Alô?” Uma voz suave de mulher atendeu.
    “Bom dia, Dona Marta. É o Antonio, tenho um favor a lhe pedir.”
    “Oi, Antonio, tudo bem. Fale.”
    “Não estou conseguindo falar com minha irmã. Deve haver algum problema com o telefone deles. Será que a senhora poderia chamá-la?”
    “Claro, não se preocupe.”
    Dona Marta foi bater na porta da vizinha.
    “Tô chegando!” Uma voz feminina respondeu.
    Rachel abriu a porta. Com o dorso da mão limpou as migalhas de pão nos cantos da boca, “Estava tomando café,” ela explicou, sorrindo alegremente.
    “Rachel? Teu irmão ao telefone.”
    Ela seguiu Dona Marta para dentro da entrada de sua casa e pegou o aparelho, “Oi, Toninho, e aí? Por que você não ligou para casa?”
    “Estamos com um problema. Desça com o Osni. Preciso falar com vocês dois. Estou no carro, estacionado há dois quarteirões para frente.”
    “O quê?” Ela perguntou perplexa.
    “Não posso falar agora. Venham.”
    Sentado no carro, Antonio esperou. Apesar de seus sentidos estarem alerta, ele, propositalmente, exibia calma. De relance se observou no espalhou retrovisor conferindo sua aparência e ficou satisfeito em ver que combinava com o bairro. De terno e sapato lustrado, Antonio mantinha-se na postura descontraída que costumava ter quando se sentia à vontade. A diferença era que, desta vez, usava bigodes e carregava um revolver debaixo do paletó.
...

36. Sangue frio

Adriana Tanese Nogueira

    Um dia, o sangue frio finalmente ressurgiu no horizonte de sua vida. Após dias trancado em um apartamento com venezianas semi-fechadas, Antonio sentiu uma mudança interior, como uma luz acendendo, e ele começou a refletir.
    Em primeiro lugar, ele pensou, estava lutando por uma boa causa, uma causa pela qual valia a pena arriscar a própria vida. Em segundo lugar, ele estava armado e tinha uma excelente pontaria, de modo que podia confiar em sua habilidade de auto-defesa. Terceiro, a polícia era brutal, mas não bem organizada. E, last but not least, uma bala no peito deles iria ferir tanto quanto no dele. Estavam empatados. Como o raciocínio lógico lhe confortava. Nada mais de viver escondido e com medo. Os medrosos são os primeiros a morrer
    Antonio respirou fundo, silenciosamente fazendo sim com a cabeça enquanto ensaiava seu próprio raciocínio. Se aquela era sua realidade, havia de ser enfrentada sem vacilar, devendo ele estar pronto para o vier. Entretanto, havia um ponto fraco. O que aconteceria se fosse pego de surpresa? O elemento inesperado era seu calcanhar de Aquiles. Portanto, ele deveria ficar constantemente alerta, pois o choque repentino iria desencadear o pânico, e com ele a parálise da ação e a confusão do pensamento. Sangue frio e raciocínio claro haviam de ser preservados. Sem eles, nem mesmo uma arma poderosa seria de utilidade.
    Ele olhou para Maria. Ela estava cozinhando. Ela levantou os olhos para conferir as crianças. Antonio observou sua calma. Ele não teria nunca imaginado que uma mulher vinda de uma família conservadora como a dela, e sem nenhuma experiência própria fosse reagir de uma forma aparentemente tão serena. Para além da imagem de dona de casa, ele a viu sob uma nova luz. 
...

35. E agora?

Adriana Tanese Nogueira

    Antonio acordou e se deu conta que estava assustado. As coisas não iam voltar ao normal. De fato, normalidade era um conceito que tinha repentinamente desaparecido de sua vida, de suas vidas.
    Ele se sentiu preso. Maria estava deitada ao lado dele, dormindo ainda. Ele olhou à sua volta, as paredes do apartamento pareciam esmagá-lo. Cordas invisíveis impediam seu movimento. Se havia algo do qual ele tinha pavor era a sensação de não poder mover-se livremente.
    Levantou-se da cama estreita. As persianas das janelas deixavam filtrar a luz do sol, brilhante e alegre como sempre em pleno verão. Ele queria abrir as janelas e deixar entrar o ar fresco da manhã. Mas será que podia? E se alguém o visse, invadisse a casa em qualquer hora do dia ou da noite? E o arrastasse para os famosos locais de tortura da polícia? Arrepiou-se.
    O mundo de for a, pelo qual ele havia andado tão à vontade, representava agora autêntico perigo. As ruas não eram mais um lugar seguro. Pela primeira vez, uma sensação tangível de medo espalhou-se pelo seu corpo e ao seu redor. Ele podia respirá-la, cheirá-la, sentir seu gosto. Dominante, poderosa ansiedade que desintegra idéias, confiança e esperança.
    Antonio sacudiu-se deste estado de espírito e foi para cozinha preparar o café da manhã. Não queria deixar-se ir desse jeito. Da bancada da pia, ele lançou um olhar sobre seus filhos, os três dormiam pacificamente sobre o sofá. O que deveria fazer com eles? Seu coração tremeu em suspense, mas ele rapidamente voltou para a racionalidade. Nada de pânico.
...

10. Vida de família em Araçatuba

Adriana Tanese Nogueira

Como um suave e gentil rio a vida em Araçatuba fluia estável e pacífica. Nossa casa tinha um jardim na frente que eu explorava em liberdade. Além da baixa cerca branca, a rua tranquila com pessoas amigáveis que passavam ocasionalmente completavam a vista.
    Entretanto, minha mãe Maria não estava tão entusiasmada como antes. A cidade era quente demais e as gravidezes haviam lhe haviam dado a sensação que fosse ainda mais quente e insuportável. Ela sentia falta de sua família, que vivia a centenas de quilômetros de distância, na cidade de São Paulo. Seu irmão mais velho havia casado e uma bebê nascido. Teria sido bom ter seu pessoal perto. A família de minha mãe era mais do tipo convencional, com definido papeis tradicionais para cada um. Apesar disso poder ser claustrofóbico, papei predizíveis dão uma sensação de conforto. A família do meu pai ao invéz era completamente diferente e tão fascinante quanto às vezes complicada.
    Seus irmãos eram ainda jovens demais para ter casado. Rachel tinha 18 anos e Osni 16 na época em que nasci. O estilo de vida do qual eles gozavam oferecia-lhes a independência de ir por aí livremente e experimentar o mundo que pessoas como minha mãe nunca teriam mesmo após deixar a casa paterna, pois estariam casadas com filhos e novas responsabilidades.
    Tia Rachel era um moleque. Ela resistiu às tentativas de sua mãe  de colocá-la no papel de dama com vestidos sedosos e perolados e graciosos penteados. De vez em quando a agradava, para logo em seguida voltar a seu estilo preferido: shortes e camiseta, e uma longa trança balançando nas costas. Ela aceitou, porém, uma das marcas da nobre perspectiva de sua mãe com relação à educação feminina: as aulas de piano, um treinamento que ela levou adiante por muitos anos.
    Tia Rachel era, como sua mãe, atraída por coisas e pessoas japonesas. Ela passava seus dias no templo Budista, onde encontrou seu amigos para a vida e seu primeiro amor. Quando minha mãe entrou na família, a Rachel e um jovem monge eramo muito próximos. O moço de bela aparência e sábio atraiu fortemente a Rachel para ele. Quando ele retornou ao Japão, tia Rachel passou um longo tempo na dúvida se iria segui-lo. Sentia saudades. Vovó Lourdes ficou ansiosa e, conforme disse para minha mãe, escondeu as cartas da filha as cartas que ele enviava por medo que esta pudesse mudar-se. Mas Rachel recebeu algumas delas quando acontecia do carteiro pegá-la em casa. Conversou com sua melhor amiga e a família dela a qual, por pertencer a outro grupo budista, sugeriu que a linha do monge não valia a pena. Mesmo assim, a relação sobreviveu por meses através de cartas de ambos os lados. No final, um dia Rachel encontrou o pacote de cartas escondidos no fundo de uma gaveda. Foi uma dolorosa descoberta. Ficou brava com sua mãe e as duas discutiram. Logo depois ela foi para São Paulo, onde de vez em quando havia ido para fazer algum curso. Desta vez ela foi para ficar.
    Osni era esbelto e de media estatura; um moço bonito, loiro de animados olhos verdes. Nunca em casa, ele amava animais e, apesar de também caçá-los de vez em quando, era ternamente capaz de cuidar de uma pata ferida ou de uma pele machucada, ou enfim de nutrir um filhote órfão. Ele tinha a habilidade do garoto acostumado a viver no meio da natureza, entre animais de todo tipo. Seu espírito sentimental entrelaçava-se com uma abordagem astuta para com a realidade e as pessoas. Sempre de bolsos vazios, ele buscava formas de conseguir dinheiro para pagar por um suco quando com os amigos ou mesmo comprar uma camisa nova, pois Osni era vaidoso. Uma vez aconteceu dele forçar a porta de casa quando não estávamos para pegar umas amostras de medicamentos do depósito de meu pai para vendê-las nas farmácias.
      Minha mãe sentiu-se muito bemvinda pelo Osni. Ele não tinha nenhum interesse para preservar. A presença dela na família não representava ameaça alguma para ele. Ao contrário, ele apreciava seu jeito maternal e quando por perto degustava doces e comida, brincado e fazendo piadas como sempre. Os dois tiveram uma relação respeitosa e afetuosa desde sempre.
     Sobre Osni não estavam postas reais exigências. Ele cresceu fora das rígidas fronteiras que vovó Lourdes estabeleceu para seu primeiro filho, Antonio, e de alguma forma para sua filha, Rachel. Osni parecia como uma sobra, por isso mais livre e solto. Ele, como Rachel, era brincalhão e tão charmoso quanto esperto. Não sempre confiável, porém.
Meu pai, ao contrário, havia sido criado para ser o herói da família. Sobre seus ombros pesavam solenes expectativas surgidas do coração de sua mãe. A natureza possessiva de vovó Lourdes manobrava ocultamente. Ela não conseguia se segurar. Carente e só, ela tremia cada vez que imaginava estar perdendo o vínculo com o seu Antonio, o qual não podia simplesmente deixar cair suas esperanças e voar longe. Sendo valorizado e apoiado por ela, ele também sentia-se responsável por não causar-lhe mais dores daquelas pelas quais ela já lamentava. Portanto, a política de meu pai consistia em agradá-la, ou nas palavras dele, em ser tolerante. E aqui estava o ponto que mais incomodava minha mãe.
    Quando meu pai casou, quem quer que fosse sua esposa, não iria ter uma vida fácil na família dele. Desde o começo do casamento, vovó Lourdes costumava visitar o novo casal quase todos os dias. Ela espreitava sobre a vida deles e sobre como minha mãe administrava a casa. Tudo era uma espécie de novo mundo mágico onde vovó respirava aquele abraço familiar acolhedor que ela nunca recebeu. Infelizmente, ela com frequência usava mal sua influência defletindo-a para pregações e direcionamentos.
    Vovó Lourdes sofria incessantemente do medo de ser traída, sobretudo depois que havia se tornado repentinamente rica. Ela desconfiava da ajuda profissional para administrar suas propriedades. Portanto, seu amigo e referência era seu primeiro filho, Antonio, meu pai. Esta era mais uma razão para aparecer em casa.
     Os lanches da tarde eram o momento favorito para vóvó Lourdes chegar em casa. Ela gostava de tomar seu café bem fraco, o chamávamos de chafé. Sentada e sorrindo radiosamente, ela esperava para ser servida pela jovem e gentil italiana, minha mãe. Já que a última havia passado sua vida em trabalho e obediência, ela não sabia como mudar esse padrão. Do ponto de vista de vovó Lourdes, a união de meus pais devia ter-lhe aparecido a perfeita combinação de dons. Seu filho lhe dava atenção enquanto sua nora era uma excelente cozinheira e uma mulher paciente. Amor e comida reunidos. Ela nunca deixou nossa casa sem ter comido algo saboroso. Quando a nonna Pasqua vinha nos visitar, ela cozinhava suas delícias e abertamente as oferecia à vovó Lourdes. Como era seu hábito, nonna Pasqua era socialmente sempre muito agradável. Mas isso não significava que ela gostava de sua hóspede. Assim que a outra saia de casa, nonna Pasqua criticava sua gula.
     As mentalidades das duas famílias eram incompatíveis. Vovó Lourdes pertencia à classe dos proprietários de terra acostumados a ter empregados domésticos. Nonna Pasqua vinha de uma família pobre que nem possuia um banheiro em casa e para a qual os filhos eram uma importante força de trabalho para a sobrevivência da famíla. Vovó Lourdes ao contrário tinha constantemente alguém em casa, uma empregada ou uma das garotas que ela adotou, a qual, mesmo trabalhando tinha uma vida melhor daquela que havia deixado junto à sua paupérrima família. Na cultura de nonna Pasqua ter uma empregada seria um absurdo, uma vez que há os flhos para fazer o serviço. Vovó Lourdes nunca entregaria as atividades domésticas para seus filhos. Em seu mundo a força de trabalho era barata e conveniente para ambas as partes. Uma garota contratada iria encontrar abrigo e comida além de seu pequeno salário. Isto era normalmente melhor para ela do que ganhar mais e ter que pagar por todas as contas.
      Nonna Pasqua havia sido uma mãe fria, nenhuma ternura ou toque amoroso eram reservados para seus filhos. Ela agradava os hóspedes, nunca eles, com exceção de seu filho mais velho o qual ela servia e que trabalhava do alvorecer ao entardecer. Vovó Lourdes ao invés dava grande importância ao agrado e ser agradada, não qualquer um porém. Ela tinha suas preferências e as mantinha sem questionamentos.
     Cozinhar era, para Pasqua, a ocupação feminina proeminente, junto com os cuidados da casa. Ela portanto não podia admirar uma mulher da sua idade que não se dedicava às mesmas coisas. Valores que não pertencessem à vida prática e diária não faziam sentido para Pasqua. O pão de cada dia: isto era importante. Seu horizonte esticava-se entre o pão salgado e o doce, com umas dúzias de deliciosas possibilidade do uso do grão entre eles.
Vovó Lourdes não cozinhava de verdade. Mas havia estudado e pretendia administrar propriedades. Ela apreciava coisas tipo Conhecimento, Patriotismo, Independência, Projetos e assim por diante. Infelizmente, ela viveu em um tempo e lugar onde uma mulher estudada e ambiciosas dificilmente podia ser aceita. Não conheceu ninhos sociais, mas um terreno constantemente instável. Para finalizar, ela passou quatorze anos com um homem que a agrediu verbal e emocionalmente e que tentou subjugá-la com todos os meios. Para vovó Lourdes era uma questão que uma pessoa ignorante não podia governar uma culta, sobretudo se fosse ela. Sua posição social estava construída sobre a certeza de sua superioridade devida a dinheiro e conhecimento, uma mentalidade que cabe como uma luva em séculos de história brasileira. Quando o dinheiro se foi e após ela ter finalmente se livrado do marido abusivo, a cultura e os hábitos mantiveram os gestos da doma orgulhosa, misturados nos tempos ruins com a autopiedade e a tristeza.
     Ambas as avós, entretanto, mantinham uma especial lealdade para com seus homens favoritos, que eram seus primeiros filhos.
    Quando vovó Lourdes chegava em casa dirigia-se somente a meu pai. Naturalmente, eles tinha seus negócios para cuidar, os quais giravam em torno de terras, e de compra e venda. E minha mãe respeitava isso. Mas a inteira atmosfera estava temperada pelos projetos e sonhos dela com os quais ela tecia uma estreita e invisível rede em volta de seu filho. De vez em quando, ela parava, esticava a face e pedia-lhe um beijo.
    Ela o criou para que ele personificasse o inteiro pacote que ela esperava de um homem: afeto e inteligência, beleza e elegância. Ela queria um homem que fosse abordável e tivesse habilidades de escuta.
    Ela conseguiu. Meu pai era tudo isso e obviamente manteve suas funções de filho após o casamento. Previsivelmente, minha mãe ficou de fora. Vovó Lourdes não a considerava parte da conversa. Para minha mãe, a qual não estava acostumada a expressar suas idéias, sobrava o “trabalho de esposa”: servir o almoço à sogra e ao marido. “Eles parecem namorados!” nonna Pasqua uma vez observou.
    Mas minha mãe não era nem acéfala ou fraca. Sua primeira e única crise aconteceu quando estava grávida de mim. Vovó Lourdes havia estado em casa naquela tarde e a perturbou enormemente. Após ela sair, minha mãe não pôde mais engolir à força seus sentimentos. Esgotada, ela caiu em prantos. Quando meu pai chegou aquela noite ela lhe contou tudo o que pensava sobre sua mãe, o quanto ela era ciumenta, arrogante e controladora. Enfim, o quanto ela era insuportável.
    Ele ouviu e a confortou, acalmando suas lágrimas. Ele acreditava que sua mãe era desafortunada com os homens, por isso triste e só, enquanto que minha mãe tinha sorte e era forte, não percebendo, desta maneira, a potência do comportamento opressivo de vovó Lourdes. Em nome da harmonia, ele pensava que sua mãe tivesse que ser aceita do jeito que era, e agradada porque, afinal, como ele genuinamente acreditava, isto não custava muito. Entretanto, daquele momento em diante ele evitou toda possível fricção entre as duas mulheres.
    Minha mãe percebeu que estava por conta própria e decidiu mudar de tática. Tomou distância da sogra e todas as vezes que se encontravam inventava desculpas para não estar disponível. Falava pouco e fazia alguma outra coisa. Quando eles tinham que ir visitar vovó, minha mãe não ficava por perto deixando que os dois conversassem entre si.
    Após meu nascimento as coisas pioraram, porque vovó Lourdes intervinha intensivamente. O clima de competição que surgiu era o que minha mãe mais detestava.
    Mas meu pai percebeu que a situação estava realmente ruim e diante das constantes interferências de vovó, numa ocasião em que ela chegava à nossa casa, a abordou ainda na calçada e lhe disse: "Olha mãe, se a senhora continuar interferindo e fazendo intriga na minha familia eu CORTO com a senhora." Vovó assustou-se e incomodou-se. Dalí em diante, ela teve que fazer o esforço de conter sua avassaladora tendência a intrometer-se.
    Mesmo assim minha mãe se sentiu aliviada quando meu pai anunciou que iria procurar por um novo trabalho em São Paulo. Muitos de seus amigos já havia se mudado para lá, para trabalhar ou estudar.
Era tempo de mudar horizontes e abrir novos caminhos.

34. Droga

Adriana Tanese Nogueira

     Totò voltou para casa furioso. Abriu com ímpeto a porta e berrou, “Pasqua!”
     Pasqua veio correndo da cozinha, alerta e confusa. “O que aconteceu, Totò?”
     Totò soltou uns grunhidos enquanto dava grandes passos para cima e para baixo da sala.
     Pasqua seguiu-o com os olhos, secando suas mãos no avental, “Ce dai…?” Ela gemeu.
     Totò parou de repente e a fitou com uma expressão em brasa, “Antonio veio à banca hoje,” ele disse.
     Pasqua escancarou os olhos.
     “Ele falou que estão na praia. Não quis me dizer onde.”
     “Maria e as crianças estão bem?” Perguntou Pasqua.
     “Ele disse que sim,” Totò parecia estar soltando fumaça.
     “Mas onde?”
     “Vai saber! Em algum lugar, droga. Ele disse que estão a salvo.”
     “Oh, Gesù…” ela sussurrou.
     Totò voltou a caminhar para cima e para baixo do quarto.
     “E… o que mais…?”
     “Só isso! Ele foi embora.”
     Os passos de Totò se tornaram sempre mais pesados como se ele estivesse martelando o chão.
     “Ele é o típico brasileiro,” Totò explodiu, “essa gente não gosta de trabalhar. Eu falei pra Maria, nunca tive uma sensação boa dele. Ela não deveria ter-se casado com ele. Droga! Brasileiros são sem vergonha. Ela tinha que casar com um italiano, alguém que sabe o que é trabalho duro e que iria lhe dar uma casa e uma família. Nada de brincadeiras. Nada de bobagens. Política! Quem se importa? A primeira responsabilidade de um homem é a de manter sua família. Ponto. O resto é o resto, quando há tempo, se houver tempo. Maria foi teimosa. Como pode? Ela sempre tão obediente acabar casando um cara como o Antonio? Onde erramos?”
     “Oh, Gesù, Gesù,” lamentou-se Pasqua, “C’hamma fe?” 
....