Adriana Tanese Nogueira
Em São Paulo, ficamos na casa de meus avós, enquanto procurávamos um apartamento. A residência era pequena; dormíamos os quatro no pequeno quarto dos fundos, originariamente uma suite de empregada que havia sido transformada em espaço para costura. Nonna Pasqua reclamava. Além de ter gente demais em casa, nossa precária situação financeira a incomodava. Não era um mistério que meu pai não fosse seu herói. Por trás do sorriso e da boa educação ela discordava dele, mas não tinha nenhuma intenção de encarar um homem.
A alma de meu pai andava esticada como num arco no difícil equilíbrio entre a urgência de nutrir sua família e o desconfortável quesito que pulsava dentro. Ele buscava encontrar um trabalho que lhe servisse. Não tendo um específico treinamento profissional, ele levou adiante a tentativa de ser um vendedor. Idealmente qualquer produto seria aceitável. Ele persistiu no campo farmacêutico. O problema era que ele precisava de orientações. Como uma estrela solitária desgarrada ele tinha consciência de sua própria luz mas faltava-lhe a bússola para alcançar seus pares e o almejado brilhante futuro em algum lugar na vasta e escura galaxia. Sua atitude reflexiva perante a vida não ajudava. Ele gostava de ter um preciso entendimento da situação antes de agir e também apreciava argumentos inteligentes. Nada a ver com as mentes simples que ele encontrou no ambiente de vendas. A nonna, para quem não há coisas como vocação ou consciência, não tinha condições de entender meu pai e a pedra no sapato dele, pois ele queria ser um bom provedor.
Mas nada disso nos tocou, ainda. Eram distantes e indefinidos rugidos de tumulto social que não podiam obscurecer nossa urgência, a de mudarmos para uma casa nossa. Minha mãe tomou a dianteira. Após pedir à nonna ficar conosco ela vôou para procurar um apartamento. Logo encontrou um. Estava localizado na ladeira da frente, a meio quilômetro de distância da casa de meus avós, no primeiro piso de um prédio de quatro andares todo coberto de pequenos azulejos azuis. Minha mãe o limpou rapidamente e nos mudamos.
A nova casa era confortável e espaçosa com dois quartos, uma sala e uma cozinha. Agora podíamos respirar. Meu pai comprou uns poucos móveis. Para mim estava bem assim, pois mais vazia a casa, mais espaço eu tinha para correr e me mexer. Minha mãe estava satisfeita porque ela agora vivia perto de sua família e sonhava ter todas as crianças crescendo juntas e coisas do tipo. Meu pai ganhava o suficiente para pagarmos as despesas mensais. O nonno Totò teve que nos salvar algumas vezes, mas no geral meus pais administravam bem o pouco que tínhamos.
Como esperado André precisava de mais atenção. Um novo médico diagnosticou-o com uma bronquite asmática, algo mais sério do que se acreditava. Daquele momento em diante, meus pais se tornaram em fieis seguidores de uma lista de medicamentos e de coisas a serem evitadas ou procuradas. Uma série de “nãos” perdurou por anos afora: não a um único grão de poeira, não ao pólem, não ao tal tecido, não a isso, não a aquilo e assim em diante. Oh, André! A despeito de sua plácida tranquilidade ele era exigente com os cuidados.
Naquele dia, minha mãe estava nervosa. O edifício localizado no centro da cidade não mostrava nenhuma específica placa do lado de fora. Ela e meu pai entraram num consultório particular. Ele permaneceu na pequena sala de espera e uma enfermeira levou minha mãe para um quarto onde uma maca de hospital reclinável dura e estreita esperava por ela. Após uma anestesia local, ela viu a profissional vestida de branco pegar dois instrumentos na forma de grandes colheres com longos cabos. A ferramenta foi inserida nela e girada para a direita e para a esquerda. Minha mãe viu-se de repente no meio da dor e terrivelmente assustada. Gritou forte e se contorceu. A enfermeira assistente lhe ofereceu um copo com dentro algo. Os braços de minha mãe agitando-se no ar fizeram-no cair no chão. Os minutos passaram lentamente. Enfim, acabou. Meu pai pagou e naquele mesmo dia eles voltaram para casa, carregando alguns remédios e o choque emocional dela.
Minha mãe precisou de vários meses para se recuperar completamente. Uma hemorrargia prolongada marcou as semanas seguintes, pedaços vermelho vívido de sangue eram perdidos todos os dias e ela se sentiu fraca e doente. Meu pai preocupou-se e chamou um amigo em Araçatuba para conselho. O homem assegurou-lhe que era uma questão de tempo, paciência e remédios.
Demorou seis semanas para processar fisicamente o adeus à pequena bebê que havia tentado entrar nesta vida cedo demais. Eu permaneci portanto a única filha. Desculpa irmãzinha. Devia haver uma fila lotada de almas empurrando e se acotovelando para entrar furtivamente nessa mãe extraordinária e você ganhou a corrida. Mas do lado de cá da vida, a palavra chave é limites. Uma pessoa não pode fazer uma enorme quantidade de coisas, entre elas não pode ter todas as crianças que gostaria nem ter controle total sobre seu próprio corpo e mente.
Agora que ela havia tentado os métodos duros, minha mãe iria definitivamente evitá-los no futuro e começou a tomar a pílula anticoncepcional. Seu sonho era ter cinco filhos, mas não um a cada ano. Afinal, eles estavam casados há somente dois anos. Minha mãe estava apreciando a nova vida num bairro agradável perto de sua família e amigos.
Naquela mesma época, o malestar social engrossou. Após a eleição direta de governadores que contrários ao regime, as autoridades decretaram o Ato Institucional n. 2 que bania todos os partidos políticos e criava dois outros, um para os partidários do governo e um segundo para a oposição que havia sobrado. A eleição presidencial se tornou indireta. Somente deputados e senadores podiam votar e haviam de fazê-lo abertamente, declarando se aceitavam ou rejeitavam o canditado escolhido pelos generais. O aumento de controle social promoveu o que iria ser em poucos anos um maciço exôdo para o exterior de um grande número de brasileiros pensantes.
Meu pai olhava para os eventos sociais longe nos seu horizonte. Alguns amigos comentaram com ele a situação, mas ele continuou lidanco com sua própria luta. Precisava encontrar um lugar no mundo do trabalho que combinasse com sua natureza. O primeiro emprego obtido não tinha nada a ver com ele e sentiu-se como um estranho observando pessoas tolas. As reuniões matinais de vendas eram escandalosamente infantis. Ele não conseguia conectar-se com colegas e chefes, desta forma parecendo um elemento esquisito, atraindo portanto a rejeição deles. E, não se identificando com a empresa, suas vendas foram catastróficas. Acabou sendo demitido. Uns dois meses depois, surgiu uma nova oportunidade. Desta vez ele começou com o pé direito. Na primeira entrevista foi indicado como um gerente em potencial.
Entretanto, diferentemente de minha mãe que se sentia realizada com a maternidade, meu pai levava adiante o trabalho como fosse uma etapa transitória na direção de alguma outra coisa. Completava suas obrigações mas não estava entusiasmado. Contudo, não havia outros planos em sua mente. Seus interesses englobavam discussões políticas e uma indagação mais ampla sobre as questões sociais. Nenhuma dessas atividades dava dinheiro e ainda por cima estavam se tornando perigosas.
Quanto o tempo de luto pelo aborto terminou e minha mãe voltou agradavelmente para sua vida, uma nova gravidez a golpeou. Não, ela não esqueceu de tomar uma pílula. É que esses bebês são realmente insistentes. A pílula mágica falhou e naturalmente um aborto estava fora de questão. Diante do estupor de minha mãe, meu pai sugeriu que fizesse a ligadura das trombas, um ginecologista amigo dele de nossa cidade natal faria a cirurgia de graça, após o nascimento do novo bebê. Não tinha alternativas. Três filhos haveria de ser suficiente. Minha mãe tinha problemas de veias varicosas e precisava usar as desconfortáveis meias elásticas o tempo todo, além do peso que havia ganho. Assim, foi decidido fechar a fábrica o quanto antes.
A nova gestação fluiu suavemente, o calor e a circulação sendo os únicos problema. O bebê parecia enorme, a julgar pelo tamanho de minha mãe. Mais uma vez ela precisou da ajuda de uma empregada quando a nonna Pasqua não podia estar presente. Todos fizeram brincadeiras a respeito de minha mãe, a mulher que fica grávida só de sentar sobre as cuecas do marido. Ela não gostava mas a verdade é que eles pareciam estar certos.
No aniversário do tio Carlo toda a família estava reunida e a festa durou horas. Naquela noite, na cama minha mãe se deu conta que o trabalho de parto havia começado. Às três da madrugada, estava na hora de apressar-se para o hospital. Meu pai foi correndo buscar a nonna Pasqua para ficar conosco e os dois se foram.
Minha mãe foi levada para um quarto cheio de mulheres em trabalho de parto, a antiga tranquilidade do interior estava perdida. Na cidade grande, os hospitais públicos tinham quartos com muitas camas e nesta ocasião todas elas estavam ocupadas por angustiadas mulheres com dor. Meu pai não pôde acompanhá-la desta vez. Minha mãe tentou manter-se calma e esperou. Na frente dela, uma mulher negra lamentava-se assustada. Minha mãe sentiu dó e a consolou. Seu nome era Augusta e ela iria se tornar nossa boa empregada um ano depois.
A noite passou, e às 8 da manhã uma enfermeira entrou e estourou a bolsa d’águas para acelerar as contrações. Prontamente, minha mãe sentiu os puxos e foi levada para o centro cirúrgico.
Desta vez foi realmente fácil. Logo um robusto bebê menino de cinco quilos gentilmente entrou neste mundo. Enrolado nos panos verdes hospitalares, ele foi mostrado à sua mãe e levado para o berçário. Alexandre nasceu. Era 9 de Dezembro de 1966.










