quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

11. Alexandre

Adriana Tanese Nogueira

Em São Paulo, ficamos na casa de meus avós, enquanto procurávamos um apartamento. A residência era pequena; dormíamos os quatro no pequeno quarto dos fundos, originariamente uma suite de empregada que havia sido transformada em espaço para costura. Nonna Pasqua reclamava. Além de ter gente demais em casa, nossa precária situação financeira a incomodava. Não era um mistério que meu pai não fosse seu herói. Por trás do sorriso e da boa educação ela discordava dele, mas não tinha nenhuma intenção de encarar um homem.

A alma de meu pai andava esticada como num arco no difícil equilíbrio entre a urgência de nutrir sua família e o desconfortável quesito que pulsava dentro. Ele buscava encontrar um trabalho que lhe servisse. Não tendo um específico treinamento profissional, ele levou adiante a tentativa de ser um vendedor. Idealmente qualquer produto seria aceitável. Ele persistiu no campo farmacêutico. O problema era que ele precisava de orientações. Como uma estrela solitária desgarrada ele tinha consciência de sua própria luz mas faltava-lhe a bússola para alcançar seus pares e o almejado brilhante futuro em algum lugar na vasta e escura galaxia. Sua atitude reflexiva perante a vida não ajudava. Ele gostava de ter um preciso entendimento da situação antes de agir e também apreciava argumentos inteligentes. Nada a ver com as mentes simples que ele encontrou no ambiente de vendas. A nonna, para quem não há coisas como vocação ou consciência, não tinha condições de entender meu pai e a pedra no sapato dele, pois ele queria ser um bom provedor.



Enquanto isso, a cidade vivia seus tempos conturbados. Na metropolis enxergáva-se os problemas sociais e políticos com sob uma lente de aumento. No mesmo mês em que nos mudamos para São Paulo, anônimos partidários do regime militar botaram fogo na sede da União Nacional dos Estudantes e três dias depois o governo militar aboliu o mandato do inteiro conselho diretor da Universidade de Brasília. Uma nova lei proibiu a existência a UNE assim como de todas as Uniões Estaduais de Estudantes. Greves e agitações apareciam nos jornais quase todas as semanas enquanto alguns dos reitores de universidades foram forçados a sair.

Mas nada disso nos tocou, ainda. Eram distantes e indefinidos rugidos de tumulto social que não podiam obscurecer nossa urgência, a de mudarmos para uma casa nossa. Minha mãe tomou a dianteira. Após pedir à nonna ficar conosco ela vôou para procurar um apartamento. Logo encontrou um. Estava localizado na ladeira da frente, a meio quilômetro de distância da casa de meus avós, no primeiro piso de um prédio de quatro andares todo coberto de pequenos azulejos azuis. Minha mãe o limpou rapidamente e nos mudamos.

A nova casa era confortável e espaçosa com dois quartos, uma sala e uma cozinha. Agora podíamos respirar. Meu pai comprou uns poucos móveis. Para mim estava bem assim, pois mais vazia a casa, mais espaço eu tinha para correr e me mexer. Minha mãe estava satisfeita porque ela agora vivia perto de sua família e sonhava ter todas as crianças crescendo juntas e coisas do tipo. Meu pai ganhava o suficiente para pagarmos as despesas mensais. O nonno Totò teve que nos salvar algumas vezes, mas no geral meus pais administravam bem o pouco que tínhamos.

Como esperado André precisava de mais atenção. Um novo médico diagnosticou-o com uma bronquite asmática, algo mais sério do que se acreditava. Daquele momento em diante, meus pais se tornaram em fieis seguidores de uma lista de medicamentos e de coisas a serem evitadas ou procuradas. Uma série de “nãos” perdurou por anos afora: não a um único grão de poeira, não ao pólem, não ao tal tecido, não a isso, não a aquilo e assim em diante. Oh, André! A despeito de sua plácida tranquilidade ele era exigente com os cuidados.

Mas como irmão era um companheiro legal, e paciente para com meu energético modo de viver. Todas as tardes, após nossa soneca, minha mãe nos levava até o pequeno jardim atrás do prédio. Enquanto o explorávamos, ela fazia amizade com outras mães, criando sua própria rede social. Tio Carlo, seu irmão mais velho, morava com a família a uns cinquentas metros acima, virando a esquina. A nonna estava em casa quase todos os dias, geralmente trazendo roupas para serem consertadas. Enquanto ela brincava conosco, minha mãe costurava.

De repente o impredizível, entretanto não supreendente, aconteceu. Uma nova gravidez se abateu sobre a vida de minha mãe como um relâmpago. A terceira, esta também chegou no período sem menstruação. Minha mãe gelou: com dois bebês e pouco dinheiro, como poderiam levar adiante uma nova gestação? Era algo insensato de se fazer. Ela havia ouvido a respeito de mulher que abortavam. Parecia fácil, nada tão ruim, e conversou com meu pai. Ele concordou. Os dois procuraram e encontraram uma profissional. A mulher assegurou minha mãe que ela estava ainda a tempo para abortar. Assim marcaram a data para o procedimento.

Naquele dia, minha mãe estava nervosa. O edifício localizado no centro da cidade não mostrava nenhuma específica placa do lado de fora. Ela e meu pai entraram num consultório particular. Ele permaneceu na pequena sala de espera e uma enfermeira levou minha mãe para um quarto onde uma maca de hospital reclinável dura e estreita esperava por ela. Após uma anestesia local, ela viu a profissional vestida de branco pegar dois instrumentos na forma de grandes colheres com longos cabos. A ferramenta foi inserida nela e girada para a direita e para a esquerda. Minha mãe viu-se de repente no meio da dor e terrivelmente assustada. Gritou forte e se contorceu. A enfermeira assistente lhe ofereceu um copo com dentro algo. Os braços de minha mãe agitando-se no ar fizeram-no cair no chão. Os minutos passaram lentamente. Enfim, acabou. Meu pai pagou e naquele mesmo dia eles voltaram para casa, carregando alguns remédios e o choque emocional dela.

Minha mãe precisou de vários meses para se recuperar completamente. Uma hemorrargia prolongada marcou as semanas seguintes, pedaços vermelho vívido de sangue eram perdidos todos os dias e ela se sentiu fraca e doente. Meu pai preocupou-se e chamou um amigo em Araçatuba para conselho. O homem assegurou-lhe que era uma questão de tempo, paciência e remédios.

Demorou seis semanas para processar fisicamente o adeus à pequena bebê que havia tentado entrar nesta vida cedo demais. Eu permaneci portanto a única filha. Desculpa irmãzinha. Devia haver uma fila lotada de almas empurrando e se acotovelando para entrar furtivamente nessa mãe extraordinária e você ganhou a corrida. Mas do lado de cá da vida, a palavra chave é limites. Uma pessoa não pode fazer uma enorme quantidade de coisas, entre elas não pode ter todas as crianças que gostaria nem ter controle total sobre seu próprio corpo e mente.

Agora que ela havia tentado os métodos duros, minha mãe iria definitivamente evitá-los no futuro e começou a tomar a pílula anticoncepcional. Seu sonho era ter cinco filhos, mas não um a cada ano. Afinal, eles estavam casados há somente dois anos. Minha mãe estava apreciando a nova vida num bairro agradável perto de sua família e amigos.


Naquela mesma época, o malestar social engrossou. Após a eleição direta de governadores que contrários ao regime, as autoridades decretaram o Ato Institucional n. 2 que bania todos os partidos políticos e criava dois outros, um para os partidários do governo e um segundo para a oposição que havia sobrado. A eleição presidencial se tornou indireta. Somente deputados e senadores podiam votar e haviam de fazê-lo abertamente, declarando se aceitavam ou rejeitavam o canditado escolhido pelos generais. O aumento de controle social promoveu o que iria ser em poucos anos um maciço exôdo para o exterior de um grande número de brasileiros pensantes.

Meu pai olhava para os eventos sociais longe nos seu horizonte. Alguns amigos comentaram com ele a situação, mas ele continuou lidanco com sua própria luta. Precisava encontrar um lugar no mundo do trabalho que combinasse com sua natureza. O primeiro emprego obtido não tinha nada a ver com ele e sentiu-se como um estranho observando pessoas tolas. As reuniões matinais de vendas eram escandalosamente infantis. Ele não conseguia conectar-se com colegas e chefes, desta forma parecendo um elemento esquisito, atraindo portanto a rejeição deles. E, não se identificando com a empresa, suas vendas foram catastróficas. Acabou sendo demitido. Uns dois meses depois, surgiu uma nova oportunidade. Desta vez ele começou com o pé direito. Na primeira entrevista foi indicado como um gerente em potencial.

Entretanto, diferentemente de minha mãe que se sentia realizada com a maternidade, meu pai levava adiante o trabalho como fosse uma etapa transitória na direção de alguma outra coisa. Completava suas obrigações mas não estava entusiasmado. Contudo, não havia outros planos em sua mente. Seus interesses englobavam discussões políticas e uma indagação mais ampla sobre as questões sociais. Nenhuma dessas atividades dava dinheiro e ainda por cima estavam se tornando perigosas.

Quanto o tempo de luto pelo aborto terminou e minha mãe voltou agradavelmente para sua vida, uma nova gravidez a golpeou. Não, ela não esqueceu de tomar uma pílula. É que esses bebês são realmente insistentes. A pílula mágica falhou e naturalmente um aborto estava fora de questão. Diante do estupor de minha mãe, meu pai sugeriu que fizesse a ligadura das trombas, um ginecologista amigo dele de nossa cidade natal faria a cirurgia de graça, após o nascimento do novo bebê. Não tinha alternativas. Três filhos haveria de ser suficiente. Minha mãe tinha problemas de veias varicosas e precisava usar as desconfortáveis meias elásticas o tempo todo, além do peso que havia ganho. Assim, foi decidido fechar a fábrica o quanto antes.


A nova gestação fluiu suavemente, o calor e a circulação sendo os únicos problema. O bebê parecia enorme, a julgar pelo tamanho de minha mãe. Mais uma vez ela precisou da ajuda de uma empregada quando a nonna Pasqua não podia estar presente. Todos fizeram brincadeiras a respeito de minha mãe, a mulher que fica grávida só de sentar sobre as cuecas do marido. Ela não gostava mas a verdade é que eles pareciam estar certos.
No aniversário do tio Carlo toda a família estava reunida e a festa durou horas. Naquela noite, na cama minha mãe se deu conta que o trabalho de parto havia começado. Às três da madrugada, estava na hora de apressar-se para o hospital. Meu pai foi correndo buscar a nonna Pasqua para ficar conosco e os dois se foram.

Minha mãe foi levada para um quarto cheio de mulheres em trabalho de parto, a antiga tranquilidade do interior estava perdida. Na cidade grande, os hospitais públicos tinham quartos com muitas camas e nesta ocasião todas elas estavam ocupadas por angustiadas mulheres com dor. Meu pai não pôde acompanhá-la desta vez. Minha mãe tentou manter-se calma e esperou. Na frente dela, uma mulher negra lamentava-se assustada. Minha mãe sentiu dó e a consolou. Seu nome era Augusta e ela iria se tornar nossa boa empregada um ano depois.

A noite passou, e às 8 da manhã uma enfermeira entrou e estourou a bolsa d’águas para acelerar as contrações. Prontamente, minha mãe sentiu os puxos e foi levada para o centro cirúrgico.

Desta vez foi realmente fácil. Logo um robusto bebê menino de cinco quilos gentilmente entrou neste mundo. Enrolado nos panos verdes hospitalares, ele foi mostrado à sua mãe e levado para o berçário. Alexandre nasceu. Era 9 de Dezembro de 1966.



sábado, 9 de janeiro de 2010

10. Vida de Família em Araçatuba

Adriana Tanese Nogueira



Como um suave e gentil rio a vida em Araçatuba fluia estável e pacífica. Nossa casa tinha um jardim na frente que eu explorava em liberdade. Além da baixa cerca branca, a rua tranquila com pessoas amigáveis que passavam ocasionalmente completavam a vista.

Entretanto, minha mãe Maria não estava tão entusiasmada como antes. A cidade era quente demais e as gravidezes haviam lhe haviam dado a sensação que fosse ainda mais quente e insuportável. Ela sentia falta de sua família, que vivia a centenas de quilômetros de distância, na cidade de São Paulo. Seu irmão mais velho havia casado e uma bebê nascido. Teria sido bom ter seu pessoal perto. A família de minha mãe era mais do tipo convencional, com definido papeis tradicionais para cada um. Apesar disso poder ser claustrofóbico, papei predizíveis dão uma sensação de conforto. A família do meu pai ao invéz era completamente diferente e tão fascinante quanto às vezes complicada.

Seus irmãos eram ainda jovens demais para ter casado. Rachel tinha 18 anos e Osni 16 na época em que nasci. O estilo de vida do qual eles gozavam oferecia-lhes a independência de ir por aí livremente e experimentar o mundo que pessoas como minha mãe nunca teriam mesmo após deixar a casa paterna, pois estariam casadas com filhos e novas responsabilidades.


Tia Rachel era um moleque. Ela resistiu às tentativas de sua mãe de colocá-la no papel de dama com vestidos sedosos e perolados e graciosos penteados. De vez em quando a agradava, para logo em seguida voltar a seu estilo preferido: shortes e camiseta, e uma longa trança balançando nas costas. Ela aceitou, porém, uma das marcas da nobre perspectiva de sua mãe com relação à educação feminina: as aulas de piano, um treinamento que ela levou adiante por muitos anos.


Tia Rachel era, como sua mãe, atraída por coisas e pessoas japonesas. Ela passava seus dias no templo Budista, onde encontrou seu amigos para a vida e seu primeiro amor. Quando minha mãe entrou na família, a Rachel e um jovem monge eramo muito próximos. O moço de bela aparência e sábio atraiu fortemente a Rachel para ele. Quando ele retornou ao Japão, tia Rachel passou um longo tempo na dúvida se iria segui-lo. Sentia saudades. Vovó Lourdes ficou ansiosa e, conforme disse para minha mãe, escondeu as cartas da filha as cartas que ele enviava por medo que esta pudesse mudar-se. Mas Rachel recebeu algumas delas quando acontecia do carteiro pegá-la em casa. Conversou com sua melhor amiga e a família dela a qual, por pertencer a outro grupo budista, sugeriu que a linha do monge não valia a pena. Mesmo assim, a relação sobreviveu por meses através de cartas de ambos os lados. No final, um dia Rachel encontrou o pacote de cartas escondidos no fundo de uma gaveda. Foi uma dolorosa descoberta. Ficou brava com sua mãe e as duas discutiram. Logo depois ela foi para São Paulo, onde de vez em quando havia ido para fazer algum curso. Desta vez ela foi para ficar.


Osni era esbelto e de media estatura; um moço bonito, loiro de animados olhos verdes. Nunca em casa, ele amava animais e, apesar de também caçá-los de vez em quando, era ternamente capaz de cuidar de uma pata ferida ou de uma pele machucada, ou enfim de nutrir um filhote órfão. Ele tinha a habilidade do garoto acostumado a viver no meio da natureza, entre animais de todo tipo. Seu espírito sentimental entrelaçava-se com uma abordagem astuta para com a realidade e as pessoas. Sempre de bolsos vazios, ele buscava formas de conseguir dinheiro para pagar por um suco quando com os amigos ou mesmo comprar uma camisa nova, pois Osni era vaidoso. Uma vez aconteceu dele forçar a porta de casa quando não estávamos para pegar umas amostras de medicamentos do depósito de meu pai para vendê-las nas farmácias.

Minha mãe sentiu-se muito bemvinda pelo Osni. Ele não tinha nenhum interesse para preservar. A presença dela na família não representava ameaça alguma para ele. Ao contrário, ele apreciava seu jeito maternal e quando por perto degustava doces e comida, brincado e fazendo piadas como sempre. Os dois tiveram uma relação respeitosa e afetuosa desde sempre.


Sobre Osni não estavam postas reais exigências. Ele cresceu for a das rígidas fronteiras que vovó Lourdes estabeleceu para seu primeiro filho, Antonio, e de alguma forma para sua primeira filha, Rachel. Osni parecia como uma sobra, por isso mais livre e solto. Ele, como Rachel, era brincalhão e tão charmoso quanto esperto. Não sempre confiável, porém.

Meu pai, ao contrário, havia sido criado para ser o herói da família. Sobre seus ombros pesavam solenes expectativas surgidas do coração de sua mãe. A natureza possessiva de vovó Lourdes manobrava ocultamente. Ela não conseguia se segurar. Carente e só, ela tremia cada vez que imaginava estar perdendo o vínculo com o seu Antonio, o qual não podia simplesmente deixar cair suas esperanças e voar longe. Sendo valorizado e apoiado por ela, ele também sentia-se responsável por não causar-lhe mais dores daquelas pelas quais ela já lamentava. Portanto, a política de meu pai consistia em agradá-la, ou nas palavras dele, em ser tolerante. E aqui estava o ponto que mais incomodava minha mãe.


Quando meu pai casou, quem quer que fosse sua esposa, não iria ter uma vida fácil na família dele. Desde o começo do casamento, vovó Lourdes costumava visitar o novo casal quase todos os dias. Ela espreitava sobre a vida deles e sobre como minha mãe administrava a casa. Tudo era uma espécie de novo mundo mágico onde vovó respirava aquele abraço familiar acolhedor que ela nunca recebeu. Infelizmente, ela com frequência usava mal sua influência defletindo-a para pregações e direcionamentos.

Vovó Lourdes sofria incessantemente do medo de ser traída, sobretudo depois que havia se tornado repentinamente rica. Ela desconfiava da ajuda profissional para administrar suas propriedades. Portanto, seu amigo e referência era seu primeiro filho, Antonio, meu pai. Esta era mais uma razão para aparecer em casa.

Os lanches da tarde eram o momento favorito para vóvó Lourdes chegar em casa. Ela gostava de tomar seu café bem fraco, o chamávamos de chafé. Sentada e sorrindo radiosamente, ela esperava para ser servida pela jovem e gentil italiana, minha mãe. Já que a última havia passado sua vida em trabalho e obediência, ela não sabia como mudar esse padrão. Do ponto de vista de vovó Lourdes, a união de meus pais devia ter-lhe aparecido a perfeita combinação de dons. Seu filho lhe dava atenção enquanto sua nora era uma excelente cozinheira e uma mulher paciente. Amor e comida reunidos. Ela nunca deixou nossa casa sem ter comido algo saboroso. Quando a nonna Pasqua vinha nos visitar, ela cozinhava suas delícias e abertamente as oferecia à vovó Lourdes. Como era seu hábito, nonna Pasqua era socialmente sempre muito agradável. Mas isso não significava que ela gostava de sua hóspede. Assim que a outra saia de casa, nonna Pasqua criticava sua gula.

As mentalidades das duas famílias eram incompatíveis. Vovó Lourdes pertencia à classe social dos proprietários de terra brancos acostumados a ter empregados domésticos. Nonna Pasqua vinha de uma família pobre que nem possuia um banheiro em casa e para a qual os filhos eram uma importante força de trabalho para a sobrevivência da famíla. Vovó Lourdes ao contrário tinha constantemente alguém em casa, uma empregada ou uma das garotas que ela adotou, a qual, mesmo trabalhando tinha uma vida melhor daquela que havia deixado junto à sua paupérrima família. Na cultura de nonna Pasqua ter uma empregada seria um absurdo, uma vez que há os flhos para fazer o serviço. Vovó Lourdes nunca entregaria as atividades domésticas para seus filhos. Em seu mundo a força de trabalho era barata e conveniente para ambas as partes. Uma garota contratada iria encontrar abrigo e comida além de seu pequeno salário. Isto era normalmente melhor para ela do que ganhar mais e ter que pagar por todas as contas.


Nonna Pasqua havia sido uma mãe fria, nenhuma ternura ou toque amoroso eram reservados para seus filhos. Ela agradava os hóspedes, nunca eles, com exceção de seu filho mais velho o qual ela servia e que trabalhava do alvorecer ao entardecer. Vovó Lourdes ao invéz dava grande importância ao agrado e ser agradada, não qualquer um porém. Ela tinha suas preferências e as mantinha sem questionamentos.

Cozinhar era, para Pasqua, a ocupação feminina proeminente, junto com os cuidados da casa. Ela portanto não podia admirar uma mulher da sua idade que não se dedicava às mesmas coisas. Valores que não pertencessem à vida prática e diária não faziam sentido para Pasqua. O pão de cada dia: isto era importante. Seu horizonte esticava-se entre o pão salgado e o doce, com umas dúzias de deliciosas possibilidade do uso do grão entre eles.


Vovó Lourdes não cozinhava de verdade. Mas havia estudado e pretendia administrar propriedades. Ela apreciava coisas tipo Conhecimento, Patriotismo, Independência, Projetos e assim por diante. Infelizmente, ela viveu em um tempo e lugar onde uma mulher estudada e ambiciosas dificilmente podia ser aceita. Não conheceu ninhos sociais, mas um terreno constantemente instável. Para finalizar, ela passou quatorze anos com um homem que a agrediu verbal e emocionalmente e que tentou subjugá-la com todos os meios. Para vovó Lourdes era uma questão que uma pessoa barbárica e ignorante não podia governar uma culta, sobretudo se fosse ela. Sua posição social estava construída sobre a certeza de sua superioridade devida a dinheiro e conhecimento, uma mentalidade que cabe como uma luva em séculos de história brasileira. Quando o dinheiro se foi e após ela ter finalmente se livrado do marido abusivo, a cultura e os hábitos mantiveram os gestos da doma orgulhosa, misturados nos tempos ruins com a autopiedade e a tristeza.

Ambas as avós, entretanto, mantinham uma especial lealdade para com seus homens favoritos, que eram seus primeiros filhos.

Quando vovó Lourdes chegava em casa dirigia-se somente a meu pai. Naturalmente, eles tinha seus negócios para cuidar, os quais giravam em torno de terras, e de compra e venda. E minha mãe respeitava isso. Mas a inteira atmosfera estava temperada pelos projetos e sonhos dela com os quais ela tecia uma estreita e invisível rede em volta de seu filho. De vez em quando, ela parava, esticava a face e pedia-lhe um beijo.

Ela o criou para que ele personificasse o inteiro pacote que ela esperava de um homem: afeto e inteligência, beleza e elegância. Ela queria um homem que fosse abordável e tivesse habilidades de escuta.

Ela conseguiu. Meu pai era tudo isso e obviamente manteve suas funções de filho após o casamento. Previsivelmente, minha mãe ficou de fora. Vovó Lourdes não a considerava parte da conversa. Para minha mãe, a qual não estava acostumada a expressar suas idéias, sobrava o “trabalho de esposa”: servir o almoço à sogra e ao marido. “Eles parecem namorados!” nonna Pasqua uma vez observou.

Mas minha mãe não era nem acéfala ou fraca. Sua primeira e única crise aconteceu quando estava grávida de mim. Vovó Lourdes havia estado em casa naquela tarde e a perturbou enormemente. Após ela sair, minha mãe não pôde mais engolir à força seus sentimentos. Esgotada, ela caiu em prantos. Quando meu pai chegou aquela noite ela lhe contou tudo o que pensava sobre sua mãe, o quanto ela era ciumenta, arrogante e controladora. Enfim, o quanto ela era insuportável.

Ele ouviu e a confortou, acalmando suas lágrimas. Ele acreditava que sua mãe era desafortunada com os homens, por isso triste e só, enquanto que minha mãe tinha sorte e era forte, não percebendo, desta maneira, a potência do comportamento opressivo de vovó Lourdes. Em nome da harmonia, ele pensava que sua mãe tivesse que ser aceita do jeito que era, e agradada porque, afinal, como ele genuinamente acreditava, isto não custava muito. Entretanto, daquele momento em diante ele evitou toda possível fricção entre as duas mulheres.

Minha mãe percebeu que estava por conta própria e decidiu mudar de tática. Tomou distância da sogra e todas as vezes que se encontravam inventava desculpas para não estar disponível. Falava pouco e fazia alguma outra coisa. Quando eles tinham que ir visitar vovó, minha mãe não ficava por perto deixando que os dois conversassem entre si.


Após meu nascimento as coisas pioraram, porque vovó Lourdes intervinha intensivamente. O clima de competição que surgiu era o que minha mãe mais detestava.

Mas meu pai percebeu que a situação estava realmente ruim e diante das constantes interferências de vovó, numa ocasião em que ela chegava à nossa casa, a abordou ainda na calçada e lhe disse: "Olha mãe, se a senhora continuar interferindo e fazendo intriga na minha familia eu CORTO com a senhora." Vovó assustou-se e incomodou-se. Dalí em diante, ela teve que fazer o esforço de conter sua avassaladora tendência a intrometer-se.

Mesmo assim, minha mãe se sentiu aliviada quando meu pai anunciou que iria procurar por um novo trabalho em São Paulo. Muitos de seus amigos já havia se mudado para lá, para trabalhar ou estudar.

Era tempo de mudar horizontes e abrir novos caminhos.





domingo, 20 de dezembro de 2009

Boas Festas!



Sinceros votos de alegria e paz.
Que o novo ano traga realizações e prosperidade.
E muito amor para um mundo humanizado.


Adriana :-)

domingo, 13 de dezembro de 2009

9. Avançando


Adriana Tanese Nogueira


          O nariz dele estava escorrendo. No dia seguinte após seu nascimento, ainda no hospital, André dormia pacificamente em seu berço, mas algo alertou meus pais. André parecia estar resfriado.
          “O negligenciaram.” Disse minha mãe, irritada. “Há poucos funcionários por causa das festas do Ano Novo e eles o ignoraram.”
          Meu pai imediatamente chamou o primeiro médico disponível. O homem observou o recém-nascido e passou alguns medicamentos. Preocupados, meus pais deixaram o hospital.
          Naquele dia, em casa, a vida não parecia muito diferente de antes. Mas logo me dei conta de qual era minha nova situação. No meio da noite fui acordada por um choro agudo. Sobressaltada, me levantei, segurando firme as barras do berço. Com olhos escancardos analisei o quarto. Confusa e assustada, procurei pela razão por que minha calma e gostosa noite tinha sido interrompida. Abruptamente a luz foi acesa, e meus pais entraram correndo no quarto. Dobraram-se sobre o berço ao lado do meu enquanto os gritos estridentes continuavam mais altos do que nunca.
          Então é isso o que significa ter um irmão! O mistério está desvelado. Ele não é feito de ossos, mas de berros.
          Meu esquema noturno mudou completamente. Não estava feliz, mas tive que chegar à conclusão de que não havia nada que eu pudesse fazer para restaurar o silêncio que eu tanto amava. Resignando-me, noite após noite, eu simplesmente deitava de novo, fechava os olhos e voltava a dormir, com ou sem luz e choro.
          André foi diagnosticado com uma rinite alérgica, que meses depois se transformou numa bronquite asmática. Latente ou aberta, a síndrome se prolongou por muitos anos. Ele se tornou o especialista na família em cuidados hospitalares. Anos mais tarde, dei-me conta que se uma agulha poderia me fazer desmaiar, nele provocava um paciente sorriso.

         Uma das primeiras coisas que André aprendeu a fazer foi limpar seu nariz constantemente escorrendo em suas mangas. Quando não irritado por isso, ele era um bebê calmo, gorducho e bonitinho. Em seus olhos, desde o começo, havia um olhar profundo e sério. Tímido, ele observava cautelosamente as redondezas antes de se lançar para fazer qualquer coisa. Sabia se divertir, mas com cuidado.
          Apesar de suas reservas, ele gostava de estar com pessoas. A nonna Pasqua estava no sétimo céu pelo simples fato dele ser um menino. Ela estendia o tapete vermelho para o primeiro bebê homem da família, toda vez que nos encontrávamos. A nonna brincava alegremente com ele, e ele lhe deu maravilhosos sorrisos.
         Estranhamente porém, em relação a nosso pai André expressava um olhar enigmático. Não respondia às tentativas do pai de brincar com ele. Podia até virar a cabeça do outro lado. Ambos meus pais se espantaram. O comportamento de André não tinha fundamento e eles pensaram que iria melhorar com o tempo. Mas isso nunca realmente aconteceu. Ninguém soube de seu segredo, talvez nem ele mesmo. André permaneceu de alguma forma distante e desconfiado de seu próprio pai.

          E quanto a mim, bem, eu acabei me acostumando no sentido bom e naquele mau. No começo não sabia o que fazer com ele. Até que fosse grande o suficiente para poder brincar, oscilei entre dar-lhe beliscões e beijar suas bochechas redondas. Quando finalmente ele foi capaz de ficar sentado, pelo menos podia abraçá-lo. E fiz muito isso, alegremente. Ele mantinha geralmente sua expressão séria. André era meu oposto. Eu fluia como um rio feliz e borbulhante; ele permanecia como um plácido lago de montanha. Eu era movimento enérgico, ele sólida rocha. Meu entusiasmo nunca o conquistou.
          O nascimento de André, no meio de um festa animada, ilustra bem sua personalidade. Quando todos estavam se divertindo, ele fez algo completamente diferente. E sobretudo, agiu sozinho. Tímido e apreensivo, André precisava de um terreno sólido sob seus pés antes de dar um passo a frente. Observava cuidadosamente o ambiente; sua natureza era como a de um jovem cervo, facilmente assustadiço. Talvez esta seja a razão pela qual ele não apreciava a companhia de seu pai, pois este último era um idealista assim como André era feito para firmar os pés no chão. Seu pai estava preocupado com a sociedade e a justiça, enquanto André precisava de um ambiente estável e seguro. Um pensava grande e no geral, o outro sentia fundo e no individual.

          André deu seus primeiros passos em nossa cozinha. De pé ao lado da porta e se segurando nela, ele fitou a geladeira e depois estudou o percurso para chegar lá. Então, moveu-se balançando um pouco, mas autoconfiante. Orgulhoso de si mesmo, alcançou sorridente seu objetivo. Era o dia do seu primeiro aniversário.
          Infelizmente a segurança da qual André precisava iria logo ser posta em risco nos eventos seguintes de nossa vida. Seu nascimento introduziu o ano de 1965. Muitas coisas estavam mudando que iam além do controle da população. Poderosos e distantes personagens seguravam firmemente as rédeas do país em suas mãos, enquanto a inquietação e insatisfação cresciam rapidamente pela nação. Nas cidades, estudantes e intelectuais de todo tipo discutiam assuntos de política. Mas nas regiões pobres do Nordeste explosões de conflito radical pareciam confirmar a necessidade de uma liderança forte.
          “Droga de americanos! Aposto que estão no meio disso. Como poderia o pessoal do Nordeste que mal conhece os jogos políticos dos militares no governo organizar tumultos desse tipo?” disse Jorge, numa das reuniões semanais em nossa casa, na Rua Rio Branco, 83. Ele era funcionário numa das lojas do centro e estudante à noite.
         “Como você pode dizer isso?” replicou Ismael, um marceneiro vindo de família humilde.
         “Porque nos últimos anos, a Emabixada Brasileira emitiu quarto mil visa e recebeu mais três mil pedidos.” Jorge virou-se para o pequeno grupo com uma expressão maliciosa no rosto. “Por que os americanos iriam repentinamente estar tão interessados em vir aqui? E, a propósito, a maioria deles foi para o Nordeste.”
         “Oh, agora faz sentido” Ismael deu um sorrisinho. “A costumeira fachada.”
         “Eles chegam aqui como estudantes e homens de negócio.” Continuou Jorge.
         “Aposto que são da CIA.” Disse Anibal. Ele havia se reunido ao grupo tarde naquele dia, após seu turno no correio.
         “Mas não poderiam fazer nada sem a cumplicidade do governo.” Disse meu pai.
        “Que recebe centenas de milhares de dólares…” Acrescentou Jorge num tom sarcástico.
         “Este é o x da questão.” Continuou meu pai. “Nosso país deveria ser assunto nosso.”
        “Os militares estão se exibindo. Abriram milhares de quilômetros de estrada e hidroelétricas. Também melhoraram a extração de óleo.” Continuou Ismael.
        “Claro. Eles seduzem as massas. Enquanto isso nunca via tanta gente arruinada migrando para os grandes centros. Vivem em barracos – vocês os viram?” Interveio Anibal.
         “Até aqui, em Araçatuba, algo está mudando.” Disse meu pai.
        “Será que vamos ter as favelas que estão sendo construídas em São Paulo e Rio?” Perguntou Anibal com olhar preocupado.
         Uma pausa tomou lugar.
        Minha mãe entrou com um de seus bolos tradicionais. Ela olhou para os rostos desassossegados deles. Eles devolveram o olhar e sorriram.
         “Já estou com água na boca.” Disse Anibal mudando para um tom jocoso.
         “Me fala se gostar. Você pode lever um pedaço para casa, se quiser. Acredito que sua mãe vai adorar comer uma fatia, não é?” Perguntou minha mãe com um sorriso gentil.
         “Posso assegurar que ela vai. Obrigado, Maria.” Respondeu Anibal.
         Minha mãe deixou o quarto enquanto os homens se serviam.
         “Antonio, o que aconteceu com o seu Grupo dos 11?” Perguntou Jorge.
         Alguns anos antes, meu pai havia sido o líder de um dos milhares de “Grupo dos 11”, que Brizola, na época governador do Rio Grande do Sul, havia criado para envolver as pessoas na política. Havia onze pessoas em cada grupo como onze era os jogadores de um time de futebol; estava na hora de jogar o jogo da mudança social.
        “Após o golpe eu dispensei o grupo e pessoalmente rasguei a lista com os onze nomes. Não era mais seguro.” Respondeu meu pai, o último a começar a comer.
       “Fez bem. Vamos ver o que vai acontecer. Há uma forte reação por parte de intelectuais e artistas contra o regime. Se o povo não sabe o que fazer, talvez eles vão conseguir alguma coisa.” Disse Anibal.
        “Não sei. Não está parecendo.” Como fino observador que ele era, Ismael reconheceu os sinais de uma crescente fraqueza social. Sua família era pobre, ele sabia o que era não ter poder.
        “Há muita gente que não se importa com o que está acontecendo.” Disse meu pai. “Vocês sabem os meus dois amigos sírios?”
        “Quem? Os donos da loja de tecidos na avenida commercial?” Perguntu Anibal.
        “Sim. Os encontrei a noite passada na praça. Eu gosto deles, mas eles não conseguiam acompanhar um só de meus pensamentos.” Continuou meu pai.
        “Eles só sabem trabalhar.” Disse Ismael. “Têm uma bonita loja de família de tecidos e nada mais lhes interessa de verdade. Falta-lhes visão.”
       Pensativo, meu pai não respondeu. Por uns minutos, todos se dedicaram à desgustação do bolo.
       Finalmente, meu pai disse: “Às vezes tenho a impressão que democracia é somente uma palavra atrás da qual as pessoas fazem o que querem.”


sábado, 12 de dezembro de 2009

8. André


Adriana Tanese Nogueira




          


“Parabéns pra você, parabéns pra você, nesta data querida, muitas felicidades, muitos anos de vida! Viva Adriana!”


           Minha primeira festa de aniversário aconteceu numa bela tarde de final de Novembro. De pé sobre uma cadeira, com olhos brilhantes, estavo na frente de um grande bolo branco retangular com sua solitária vela, simbolizando meu primeiro ano de vida, o mais desafiador e valente para cada um de nós. Do alto da minha posição, usava o vestido que minha mãe havia ternamente feito; um sorriso se abria sobre minhas bochechas cobertas de chocolate. Fitava encantada a sala decorada, tão colorida como as muitas nuanças da cor de pele das crianças convidadas.

          Minha mãe, que a gravidez havia modelado na forma de uma esfera, sorria radiantemente enquanto batia as mãos com alegria. Ela parecia exultante. As pessoas acompanhavam. Sua melhor amiga e família estavam entre os hóspedes. Vovó Lourdes sorria com seus lábios finos, os olhos escondidos por trás dos costumeiros óculos escuros. Ela parecia surpresa. Nunca havia organizado uma festa para sua única filha. O primeiro bolo de aniversário de minha tia Rachel foi feito pela sua nova cunhada, quando ela fez 18 anos.


          Havia sido um excelente primeiro ano. O amor de minha mãe, aos poucos, trabalhou para quebrar meu ciúmes preocupado com relação ao intruso que se escondia debaixo de sua pele. Dou-me conta hoje que desde o comecinho fui silenciosamente treinada para a aceitação e a tolerância que o amor exige. Foi o exercício de uma vida, que, devo dizer, nem sempre tem tido sucesso. Naqueles tempos, quando estava experimentando meus poderes de uma crianças entusiasta e andante, podia conceder ao intruso em sua barriga, um pouco de espaço. Mas, bom, não tão rapidamente.
          A desconfortável sensação da barriga dura de minha mãe alcançou seu cume na noite que passamos no ônibus fugindo de Araçatuba. Minha mãe queria escapar de vovó Lourdes. Meu pai havia deixado a cidade para trabalho sem dizer quando tempo estaria fora. Minha mãe sabia que, como primeira coisa na manhã seguinte, vovó iria chegar em casa para tomar o café da manhã conosco e dar um jeito de comandar sobre nossa vida. Sem meu pai ela se sentia ainda mais autorizada a interferir sobre as escolhas de minha mãe a respeito de como cuidar de mim. Minha mãe estava cansada disso. Portanto, decidiu partir imediatamente. Quando vovó fosse chegar no dia seguinte iria encontrar uma casa vazia e nenhuma explicação. Os oito meses de gravidez não a impediram de pegar o primeiro ônibus noturno para São Paulo.
          Assim, lá estávamos as duas, quero dizer, os três: ela, a barriga e eu tentando dormeir num aparentemente reduzido assento de ônibus. A protuberante barriga estava logo entre nós. Como podia ser tão dura se todo o resto nela era suave, como seus olhos e sua voz? Seria ele feito só de ossos?
         Quando vovó Lourdes apareceu na manhã seguinte para bater na nossa porta, sobressaltou ao ver que ninguém atendia. Dirigiu-se então para a vizinha do lado para perguntar sobre nós. A moça, amiga de minha mãe, disse-lhe que tínhamos ido para São Paulo. “Aquela italiana!” exclamou em disaprovação vovó Lourdes e caminhou de volta para sua casa, de cabeça alta e nariz empinado.

         O final da viagem nos levou direto para a casa de meus avós maternos, no fundo da íngreme ladeira em São Paulo. Foi uma agradável compensação da jornada no ônibus. A atmosfera barulhenta e fragrante da casa deles nos consolou. Meu nonno me deu as boas vindas com um grande sorriso e os braços abertos. Havia um especial magnetismo entre nós. Revistas para crianças e brinquedos estavam disponíveis. Enquanto eu subia e descia as escadas com meu pai atrás, o nonno olhava divertido. Eu era provavelmente a mais vivaz e engraçada criança que ele já havia visto. Em mim corria solta a vida vibrante e calorosa que havia sido oprimida nele e em seus filhos por causa da dureza da sobrevivência.
          Seus ternos olhos verdes estavam cheios dos sentidos de uma vida difícil. Rugas na pele bronzeada circundavam seu olhar esmeraldo. O cabelo acinzentado bem penteado estava dividido pela metade na cabeça quadrada e ele tinha bigodes retos. Estava sempre queimado pelo sol tropical sob o qual trabalhava como dono de uma banca de jornal na esquina da avenida principal perto de sua casa. Seu charme era valorizado pela cuidadosa escolha da roupa. Não é preciso ter dinheiro para ser elegante. Ele era genuinamente italiano; a aparência era importante.

          Uns dias com seus pais deram à minha mãe a necessária recuperação dos sentimentos desagradáveis que sentia para com vovó Lourdes. Meu pai, que também estava em São Paulo, juntou-se a nós e em seguida todos voltamos para Araçatuba numa disposição melhor de quando tinhamos chegado. Desta vez a viagem foi mais relaxante. Ter meu pai no ônibus foi de grande alivio para mim.

          O Natal se aproximava e meus avós junto o tio Leonardo vieram para passá-lo conosco em Araçatuba. O calor estava quase insuportável, mas pessoas simples reclamam pouco. Eles ajudaram minha mãe tomando conta das atividades ordinárias da casa e cozinhando.
           Na tarde da vigília do Novo Ano, minha mãe foi para o salão de cabelereiro de sua amiga e minha madrinha. Era um dia movimentado no salão entre mulheres batendo papo e as funcionárias correndo para cima e para baixo. Minha mãe estava fazendo seu cabelo quando as primeiras contrações anunciaram que André estava a caminho. Sua experiência anterior havia lhe ensinado que não precisava se apressar e ela terminou o que havia começado. Em seguida, calmamente caminhou de volta para casa com seu belo cabelo feito.
           A mala estava pronta e todos esperaram, comeram e beberam. Sendo a primeira neta da família eu era o centro das atenções. Minha natureza alegre dava-lhes o divertimento que queriam. Brinquedos me interessavam, mas eu preferia a interação com as pessoas e jogos como esconde-esconde que me excitavam muito.
           Para o Reveillon cores brilhantes, fogos de artifício, música e dancas estavam em todo lugar. Nesse rito de passagem, vestidas de branco, como manda a tradição, as pessoas dançavam e se divertiam em buates e nas ruas onde bandas tocavam. Enquanto a festa estava em seu maior pique, meu irmão André silenciosamente abria caminho para entrar nesse mundo. Perto da meianoite, minha mãe sentiu que estava na hora de ir e ela e meu pai correram para o hospital.
           Infelizmente, o médico de confiança estava comemorando em algum lugar. Um colega desconhecido tomou seu lugar. Minha mãe sentiu-se incomodada em ter um estranho examinando-a. O hospital estava quase vazio e o sentimento de ter sido abandonada pesou em seu coração. A grande festa fora da janela era distante e desinteressante comparada àquilo que o nascimento de seu segundo filho significava para ela.
           Deitada na cama no quarto de hospital, minha mãe sentiu-se só. Entre uma dolorosa contração e outra, meu pai prestava atenção na corrida de São Silvestre que saia de seu pequeno rádio. Mas minha mamãe concentrou-se no parto enquanto as horas passavam e a noite se aprofundava.
           Às quatro e meia da manhã, ela foi levada à sala parto. Desta vez foi mais fácil; ela estava menos assustada. Meia hora mais tarde, após as costumeiras intervenções médicas, André nasceu e foi levado até ela. Aliviada e alegre, ela olhou para ele. Os longos nove meses de calor, peso e meias elásticas estavam terminados. Ela havia finalmente recebido seu prêmio: um belo, gorducho, forte e muito branco bebê. Com ele ela sentiu que sua maternidade estava completa.

          No lugar de seu peito e corpo macio, André encontrou-se sobre uma fria mesa e chorou. As enfermeiras pareciam não notar o incômodo dele. Elas curtiram a curiosa crença segundo a qual o xixi do recém nascido é considerado como dando sorte para o começo do ano. André, que certamente nada sabia sobre crenças e hospitais e xixi, longe do consolador bater do coração de sua mãe, gritou mais forte ainda e fez xixi, como elas esperavam. Rindo, as enfermeiras esticaram suas mãos sob sua fonte.

domingo, 6 de dezembro de 2009

7. Uma Família Engajada


Adriana Tanese Nogueira




A vida era abençoada. Eu tinha pais amorosos e vivia numa ensolarada e gostosa cidade do interior. Meus dois adultos de estimação eram jovens demais para terem florescido em sua maturidade. Entretanto a juventude lhes deu seus dons: autoconfiança e entusiasmo para ele, serenidade e inocência para ela.


Tendo sido pobre a vida inteira, minha mãe ganhou finalmente sua primeira boneca: eu. E devotou-se a desdobrar as alegrias da maternidade; ela cuidava e embelezava. Comigo no carrinho, passeávamos até a avenida comercial. La prestava atenção às recentes tendências na moda infantil expostas nas boutiques. Na máquina de costura, ela as copiava. Sua vida crescia entre ternas cores e combinações bonitas, enquanto sua personalidade se aprofundava. A maternidade a fortaleceu. Criar e alentar iriam ser a principal missão de sua vida, dar à luz filhos não é suficiente.

Nenhum descanso lhe foi reservado após meu nascimento. Eu estava com quarto meses quando ela ganhou mais um bilhete vencedor e deu adeus ao seu corpo de adolescente. A magra e pálida garota estava sendo substituída por uma jovem mulher de 23 anos em sua segunda gravidez. A tradição de sua família sustentava que a amamentação iria protegê-la. Afinal, minha avó Pasqua engravidou a cada dois anos, após ter interrompido a amamentação. Mas isso não funcionou para minha mãe. Ela estava amamentando, não tinha menstruação e, mesmo assim, lá veio ele. Meu irmão André estava a caminho.

Eu me pergunto, não poderia ele ter esperado um pouco mais? Para quê toda essa pressa? Me dê um tempo, mano. Não, ele se impôs numa corrida para aterrizar neste planeta. Tudo bem, é verdade que eu também demonstrei impaciência. Eu me enfiei quando minha mãe era ainda virgem, eles nem tiveram uma completa relação que lá estava eu. Mas, bem, eu sou a primeira. Uma vez aqui, eu sou a dona e comando. Ele não me pediu licença por isso vamos deixar uma coisa bem clara: aqueles dois aí, a mulher magnífica na qual barriga você está e o homem bonito do lado dela são meus. Sacou, mano?

Algo volumoso ganhava espaço entre o corpo de minha mãe e o meu. Pensamentos precisam de tempo para se desenvolverem, mas sentimentos são espontâneos e inequívocos como instintos. Eu percebi que meu domínio estava sendo invadido. Esta coisa se espraiou nos meses seguintes, enquanto minha mãe crescia, logo no momento em que eu estava expandindo meus poderes.

A vida chamava. Podia senti-la brilhar em meus olhos e pulsar em meu cérebro, mãos e pernas. Eu queria conquistar o mundo, eu queria ser. Aos 9 meses e 20 dias ganhei minha liberdade. O gigantesco, porém ordinário, feito foi conquistado: eu andava por mim mesma. Era Setembro, o começo da primavera, e eu estava pronta para ir.




A curiosidade era a minha deusa. Eu demandava saber, ver, agarrar e saborear. Investiguei a casa, levantei-me nas pontas dos pés e alcancei e espiei cada móvel. Todos os delicados ornamentos de minha mãe foram observados, puxados e a maioria deles encontrou fatalmente o duro chão, quebrando-se em pedaços. Minha mãe me perdoava todas as vezes.

O jardim da frente da nossa casa era um dos meus lugares favoritos. Correndo para fora, eu explorava a natureza verde e marrom. Mexia no solo e desgustava a boa terra com seus minerais. Minha purista avó Pasqua, quando por perto, pulava para me arrancar do chão e lavar minhas mãos e boca. Ela nunca descobriu o excitante sabor da relva.

Nos finais de semana dávamos passeios agradáveis pela cidade. Meu pai atraia amigos e conhecidos. As pessoas vinham dizer oi e familiarizar-se com o pequeno fruto daquele que eles chamavam “um belo casal”. Minhas bochechas rosadas abaixo dos grandes olhos verde-cinza e minha característica expressão vivaz me tornaram muito popular. Sempre bem vestida, eles diziam que eu era adorável. Mas não era uma estátua. Meus pais precisavam manter um olho em mim, pois minhas rápidas pernas me faziam desaparecer num piscar de olhos.


Movimento era minha palavra chave. Não é uma coincidência que as primeiras coisas que eu aprendi foram carro e cavalo. Eu e meu pai costumávamos dar passeios à tarde, permitindo a minha mãe descansar. Desde aqueles dias, nos somos os caminhadores da família. A praça florida perto de casa era nosso lugar preferido. Lado a lado, caminhávamos, minha mão segurando seu dedo indicador. Cavalos puxavam carruagens e carros passavam. Me emocionavam. Estar perto de cavalos sempre fez meu coração sentir-se nostálgico. Eu sentia sua falta antes mesmo de ter jamais tido um.

Se não podia cavalgar, eu porém podia usar minhas pernas e isso me colocava no comando. A liberdade começa com as pernas. Graças a elas eu era o próprio movimento. Podia correr, pular e aterrizar sobre meus pés. O estágio seguinte da autonomia é explorar o território. Logo expressei meu espírito independente. Eu saia de casa e atravessava o jardim da frente, abria o portãozinho e descia o degrau segurando-me à grade de ferro. Após fechá-lo atrás de mim, corria para a vizinha do lado brincar com seus filhos. A habilidade de ir por aí e sentir-me no comando me dava a excitante emoção de estar viva.

O pequeno escritório caseiro de meu pai também foi investigado. Contra a parede, havia prateleiras cheias de medicamentos, amostras da empresa farmacêutica para a qual ele trabalhava. As garrafas e pacotes coloridos me atraiam. Abri tudo o que estava ao meu alcance e experimentei algo cremoso, adocicado e branco que me agradou muito. Posso ainda sentir seu sabor. Apreciei esses achados até o dia em que a porta foi trancada.

Meu pai costumava me segurar no colo e dançar comigo. Ele era um homem feliz naquele tempo. Amava a música brasileira. Ritmicamente balançava comigo e cantava suas canções favoritas. Eu não sabia o quanto esta experiência deixou uma abençoada marca em minha alma até me encontrar, 30 anos mais tarde, fazendo o mesmo com minha filha bebê. Sentia-me tão cheia de alegria como da primeira vez. Vendo seus olhos brilharem e seu grande sorriso eu soube que ela estava feliz também. Então me dei conta das boas memórias que carregava comigo.

Na época em que desenvolvi meus poderes de independência, minha mãe foi ficando grande demais. Ela não podia dobrar-se, agachar-se e levantar-se de novo e de novo. Um dia uma mulher com a filha adolescente passou por lá. Ela procurava um trabalho para a filha. Minha mãe gostou da jovem e a contratou. Eu tinha então uma nova companheira de brincadeiras. Ela ajudava minha mãe com os deveres de casa, mas sobretudo ficava comigo. Minha mãe podia descansar mas nunca nos deixava sozinhas.

De vez em quando alguns amigos do meu pai vinham visitá-lo. O pequeno grupo de jovens conversava no escritório dele. Política era o assunto principal, como poderia ser futebol para outros, pensou minha mãe. Educados e gentis, a maioria se conhecia desde a infância. Havia trabalhadores humildes, donos de loja e estudantes. Meu próprio pai era também um estudante. Ele frequentava o curso noturno de contabilidade.

Minha mãe não sabia nada de política, mas iria aprender rapidamente. No ano anterior, grávida de mim, a campainha da porta tocou. Um policial estava procurando por meu pai. Sobressaltada, ela perguntou a razão da visita. O homem não quis dizer. Deixou uma mensagem porém. Meu pai tinha que se apresentar à polícia. Do outro lado da rua, uma vizinha observava e veio correr para conversar com minha mãe assim que o policial se foi. Ela disse que a polícia havia estado em sua casa também. Seu filho era um dos colegas de classe de meu pai. Ela falou sobre o movimento estudantil que estava crescendo e começando a levantar sua voz.

Quando meu pai voltou aquela noite, minha mãe lhe disse que estava confusa a respeito da desagradável visita: “O que significa?”

“Deve ter sido aquele professor antipático!” Ele respondeu. “Eu discordei dele na classe. Ele estava dizendo umas bobagens sobre Cuba. Meros preconceitos demagógicos. Deve ter me denunciado à polícia.” Me pai estava incomodado mas não realmente preocupado.

“Nossa vizinha”, continuou minha mãe, “veio aqui logo depois que o policial saiu e ela me falou do movimento estudantil. O que está acontecendo?”

“Está havendo um aumento da consciência social. As pessoas querem justiça.” Ele respondeu. “Você não viu quanta gente pobre e miserável há por aí?”

Sim, minha mãe havia notado, impossível fechar os olhos. A pobreza era um trato marcante do Brasil, havia gente pedindo esmola ou vivendo nas ruas, crianças sujas e sozinhas, negros fortes sem trabalho. Sua tradição familiar lhe havia ensinado que uma pessoa é pobre porque não trabalha, e não trabalha porque é preguiçosa. Esta era a simples equação que ela conseguia imaginar.

“Não é tão simples, Maria.” Meu pai disse. “As coisas são feitas para manter esta situação. É o resultado de uma organização social injusta. O sistema politico representa os interesses de uma pequena parte da população. Um diminuto grupo de homens ricos governa o país. As coisas precisam mudar. Não é justo, para nós, para nossos filhos, para todos.”

Ele falou clara e calmamente, como de costume. Ela admirava a lucidez de suas palavras. Daquele dia em diante minha mãe havia refletido sobre essas novas idéias e elas faziam sentido em sua cabeça.

É por isso que, quando os amigos de meu pai chegavam em casa, ela lhes dava as boas vindas. Comigo trotando ao seu lado, ela gostava de foi preparar um refresco para os jovens homens que falavam de política. Ela gostava deles.

Eu dei meus primeiros entusiasmados passos no mundo junto aos primeiros largos passos de meu pai no envolvimento politico e social, enquanto a barriga de minha mãe crescia e seus olhos se abriam. Nós éramos uma família engajada.




sexta-feira, 20 de novembro de 2009

6. Nascida em tempos de mudança

Adriana Tanese Nogueira





“Maria, empurra! Vamos, Maria, empurra de novo!” A carne em volta de suas unhas estava ficando azulada. Fazendo uso de toda sua força, Maria esforçava-se para dar à luz seu bebê. Muitas horas haviam se passado desde que ela tinha deitado sobre aquela cama.

Antonio havia passado a noite ao lado dela. Espantado perante o processo de parto, ele não sabia o que fazer e se sentiu frustrado diante do sofrimento dela. Dona Lourdes, sua mãe, dava orientações. Ela queria ajudar, mas se Maria pudesse ter opção, não iria escolher sua sogra para dar-lhe suporte naquele momento crítico.

Após o começo entusiasmado em sua nova cidade do interior, Maria deu-se conta de que a realidade não era como esperava. O calor de Araçatuba era insuportável, sobretudo para uma mulher grávida, e a mãe de Antonio revelou-se se intrometida. Dona Lourdes tratava seu filho com cerimônias, esperando de Maria o mesmo. Assim, ela frequentemente se inseria na relação deles comentando as respostas e os modos de Maria.

Quase todos os dias Dona Lourdes passava pela casa deles, buscando receber atenção, uma bela xícara de café e biscoitos. Ela gostava de ser mimada tanto quanto de comer as delícias culinárias de Maria. Considerando seu filho um homem importante, ela desaprovava se Maria o desagradasse por qualquer motivo. Do lado dele, Antonio não procurava por reverências, mas ele também tentava não se opor à mãe.

Maria não gostava disso. Ela havia sido educada para aceitar o lugar tradicional da mulher, que era a casa e a família, mas ela não era boba. Acostumada a uma vida mais prática e com os pés no chão ela não podia suportar todos aqueles rituais e o tempo gasto em torno de agradar quem quer que fosse. Ela era uma mulher carinhosa, mas seu comportamento amoroso não podia ser uma obrigação. Sobretudo, Maria reagia contra alguém que se colocava como superior a ela.

Dona Lourdes tinha a expectativa de encontrar em sua nora a mesma atitude passiva que a mãe de Maria tinha. Mas estava errada. Maria logo parou de dar-lhe balas e deferências. Quando Dona Lourdes chegava, Maria saia de casa para dar uma volta ou ia para seu quarto fazer qualquer coisa que não fosse ficar perto dela para servi-la e dar-lhe o melhor de sua cozinha. Dona Lourdes queixava-se da ausência de Maria com Antonio. Ele pacientemente ouvia-a mas não pedia para Maria estar presente. Ao invés disso e no lugar de sua esposa, ele oferecia à sua mãe um café e os doces e pães que Maria ou Pasqua havia preparado. Quando Dona Lourdes ia embora, Maria reclamava com Antonio de sua mãe exigente. Ele tentava acalmar Maria e explicava-lhe que eles deviam ser tolerantes e compreensivos, pois, ele dizia, Dona Lourdes não tinha marido. Não convencida, Maria achava que Antonio estivesse do lado de sua mãe.

Agora, no hospital, Maria gostaria de ter sua mãe perto; qualquer pessoa de sua família iria fazê-la sentir melhor.

Ela agarrou por trás a cabeceira de ferro da cama. As veias pularam de seus braços e o rosto tensionou-se. Maria estava fazendo o seu melhor para terminar o doloroso processo de parto. Ela navegava, como uma heroina solitária, pelas misteriosas fronteiras que separam a vida de sua secreta origem. Seu medo e desconhecimento do parto criava tensão que endurecia os músculos, portanto se corpo não podia soltar-se para a confiante entrega que o parto é. Duas forças opostas assediavam o canal de parto; o instinto de auto-proteção que comanda para encolher e congelar se opunha à urgência de soltar para expandir, favorecendo a passagem do bebê. Além do mais, Maria estava bloqueada numa cama. Suas costas e veias esmagadas debaixo da grande barriga aumentavam sua dor. Ela não podia se mexer, as mulheres haviam de dar à luz deitadas e aquela era a regra hospitalar. A experiência de parto tinha o sabor do tormento, e parecia-lhe demorada demais, entretanto aquelas 12 horas eram o tempo normal para o parto do primeiro filho.

Antonio saiu para esticar a pernas pelo quarteirão. Poucos minutos mais tarde o médico, que havia aparecido de vez em quando para checar a dilatação, decidiu levar Maria para a sala parto.

Era um dia quente de primavera. Não havia ar condicionado disponível. O suor de Maria escorria-lhe pelo seu rosto cansado e pálido. O jovem doutor fez o corte desnecessário. A parte feminina sagrada, que nenhuma faca deveria jamais tocar, abriu-se como uma flor para entregar seu fruto. E lá estava eu, nascida finalmente.

Encontrei-me de repente sobre a dura e fria mesinha onde os bebês são examinados. A prolongada compressão havia deixado seu sinal na roxidão de meu rosto. O vago sentimento de sufocamento que percebi em alguns momentos cruciais de minha vida eu o consigo explicar somente através de minhas condições de nascimento. Quando uma grande mudança precisa acontecer, uma insuportável pressão se abate sobre mim até que, como por milagre, minha luta vence e o fluxo da vida recobra sua soberania.

Observada pelo médico, eu rolei meus olhos em todas as direções. Onde estava? O cordão umbilical havia sido cortado às pressas, deixando-me confusa. Ele era minha conexão à segurança e ao amor que se chama Mãe. Logo, aqueles primeiros pavorosos minutos foram seguidos pelo mais feliz dos finais quando eu senti meu corpo sobre o de minha mãe e minha boca pôde agarrar o seio dela. O mundo voltou à paz naquele 23 de Novembro de 1963.


Minha mãe sorriu para mim. Jamais ela poderia ter imaginado que pudesse ser tão maravilhoso. Ela contemplou o que havia acabado de sair de seu ventre. Ela tinha uma bebê, uma perfeita e linda bebê que era somente dela. Dor e fatiga desapareceram.

Um pouco mais tarde meu pai voltou. Ele mirou surpreso sua filha deitada ao lado de Maria. Seu primeiro sentimento foi de alivio: Maria estava finalmente sem dores. Então, virou-se para mim, incerto sobre o que pensar. Viu grandes olhos inquietos se mexendo como que tentado apreender a inteiro ambiente à sua volta.

Ele se familiarizou comigo bem rapidamente. Chorei com frequência pelos três dias e três noites seguintes por causa de uma hernia umbilical. Qualquer pequeno lamento levava a um choro mais forte, porque a hernia inchava dolorosamente cada vez que mexia a barriga. Para permitir a minha mãe dormir, meu pai passou aquelas três noites comigo. Antigas fotografias me trazem o eco de sentimentos que minha mente esqueceu, como se a vista pudesse trazer de volta a memória do corpo. Eu imagino seus braços fortes e aconchegantes em volta de mim e minha maravilha perante aquele homem colossal e amigo. Mas a hernia era realmente terrível e todos finalmente encontramos sossego quando uma esperta pediatra enfaixou minha barriga e então meu corpo tomou conta do processo de cura.


Na serena e ensolarada cidade começou minha vida. As roupinhas de bebê e os acessórios que minha mãe havia costurado durante a gravidez foram inaugurados. Cada pequena peça de meu guardaroupa estava impregnada de seu toque maternal. Meu tio Osni deu-me um travesseiro feito das plumas dos patos que ele havia caçado nas semanas anteriores. Minha tia Rachel me exibiu aos amigos do templo Budista que ela frequentava. E finalmente, minha avó Lourdes estava previsivelmente mais presente do que minha mãe teria gostado. Ela queria me levar para passear no carrinho vezes demais.

Mas alguma outra coisa aconteceu. Como uma pequena mosca preta, desagradável mas não ainda realmente significiante, algo além do nosso controle deu seu primeiro leve sinal.

No dia em que nasci, minha tia chegou correndo trazendo as últimas notícias: John F. Kennedy havia sido assassinado no dia anterior. Teve este evento algum efeito sobre a história da América do Sul? Como água de fonte que jorra espontanemente da terra, idéias inovadoras estavam regando aqueles tempos. Kennedy deu voz a um sonho sonhado por muitos.

No Brasil, até então, seus líderes haviam usado a falta de direitos, educação e iguais oportunidades para instrumentos para apertar o controle sobre a população. Era precisamente isso que os cidadãos estavam questionando naqueles tempos. Um despertar social de amplas proporções estava sacudindo antigas estruturas de poder, enquanto o presidente João Goulart movia-se na direção de reformas nacionais. Uma ilustração da época em outdoors o mostra no ato de varrer o lixo político que obstruia o desenvolvimento brasileiro.

O espírito da esquerda inspirava novos projetos e ideias. Rebelliões contra os poderes tradicionais aconteciam até dentro do exército.

Paulo Freire no faminto Nordeste lançava sua Educação dos Oprimidos, um método revolucionário para ensinar a ler e a escrever. Padres, freiras e católicos receptivos criaram a Teologia da Libertação a partir da leitura da realidade política e social do ponto de vista dos Evangelhos. Eles concluiram que a injustiça era um pecado.

Um novo espírito preenchia o ar.


Enquanto isso, na minha pacífica cidade do interior, eu começava a distinguir os arredores. O mundo estava ficando mais claro e immensamente interessante. Não mais visões fora de foco, eu podia agora olhar direto nos olhos dos meus amados pais. Eles eram tão fascinantes como eu poderia conjecturar no alvorecer de minha imaginação.

Estava com quatro meses experimentando essas maravilhas quando o mundo deu uma repentina curva para direita. Um golpe de estado no dia 31 de Março de 1964 colocou o país de cabeça para baixo. Na calada da noite um governo militar tomou o poder. João Goulart fugiu junto à sua equipe.

As pessoas acordaram na manhã seguinte num mundo direferente. No começo, os generais disseram que seria um período provisório. Mas não foi. De cima uma rede foi jogada e qualquer mente que ousasse pensar autonomamente foi dobrada e violentamente silenciada.



Mais obscuras moscas zumbindo perturbaram meu mundo. Eu não podia vê-las, porém. A inocência da idade abanou-as para longe – mas não por muito tempo.