Adriana Tanese Nogueira
“Toninho, precisamos conversar,“ sussurrou Nelson virando a cabeça de lado para que ninguém mais pudesse ouvir.
“Oi cara, como você está?” Antonio não levou a sério o tom de voz de seu amigo e lhe deu as boas vindas convidando-o a entrar.
“Você soube das notícias?“
Antonio fitou-o por um instante confuso.
“Os generais decretaram mais um Ato Institucional, o N. 3. Agora, os cidadãos não podem mais eleger governadores. O regime escolhe os governadores e estes decidem que serão os prefeitos de suas cidades.” Continuou Nelson e sentou-se confortavelmente no sofá esticando ambos os braços sobre o encosto.
Nelson e Antonio conheciam-se desde a infância em Araçatuba. No passado, muitas horas foram gastas conversando sobre a realidade do país, o socialismo e as perspectivas políticas para o Brasil. Agora Nelson estudava Filosofia na USP, enquanto Antonio tinha uma família para cuidar.
“Quando aconteceu?” Perguntou Antonio perplexo, sentando-se na poltrona na frente dele.
“Dia 5 de Fevereiro. Onde você está, cara? Você não acompanha as notícias?”
“Estou ocupado com a minha família e tentando ganhar dinheiro. E além do mais, dia 5 de Fevereiro era o aniversário de Maria.“ Antonio exclamou fazendo uma careta. “Você acha que é fácil?”
“Você tem razão. Além do mais, como sempre, esse tipo de notícia nunca recebe muita relevância.”
“Tipo que aparece num canto da quinta página do jornal…” Antonio contraiu-se completando a frase de Nelson. Preocupava-o o movimento político camuflado mas contínuo na direção de uma ditadura total.
De repente, Nelson inclinou-se para mais perto dele e baixando a voz disse: “Eu e meu irmão entramos na POLOP.” Ele parecia revelar algo que estava ansioso para contar a Antonio. “Você os conhece?”
“Ouvi falar da POLOP.” Antonio fitou Nelson nos olhos experando para saber mais.
“No Departamento de Filosofia da USP, nós estudantes estamos agitando as coisas. Alguns professores estão conosco. Mas não é suficiente. Tem uma grande parte maioria da população completamente inconsciente do que está em jogo.” Nelson tensionou a testa e sua voz se tornou mais grave.
E continuou: “O Partido Comunista pensou que iria conseguir obstaculizar o monopólio do poder por parte dos generais. Mas estavam errados. As garras do regime alcaçam mais e mais longe a cada mês.“
“A despeito das aparência. De fora, parecemos uma sociedade normal.” A voz séria de Antonio ressoava na casa vazia.
“Isso mesmo. Nós somos uma sociedade normal. Basta não perguntar, não pensar, não levantar demais a voz. Realmente uma bela sociedade. ‘Ordem e progresso‘, como está escrito em nossa bandeira, onde ordem significa repressão, e progresso quer dizer que uns ficam ricos e a grande maioria cala a boca”. Nelson disse sarcasticamente.
“Conversa pra boi dormir, é o que nos passam. Como é fácil manipular quem não tem conhecimento suficiente.” Antonio concordou.
“E aqui entra a POLOP. Por que você não se une a nós? Conheci um casal de professores na USP. O Éder é um dos fundadores da POLOP, e a Regina é incrível. Você precisa conhecê-los.” Nelson estava entusiasmado, até levantou a voz esquecendo por um momento de sua cautela habitual.
“Qual é o plano deles?”
“Eles…” Nelson parou quando a campainha tocou.
Antonio abriu a porta para Neneta. Os grandes e indagadores olhos verdes dela perscrutaram rapidamente o espaço.
“Oi Toninho, Maria não está em casa?”
“Ela está lá em baixo, no jardim, com as crianças. Você pode alcançá-la lá.”
“Tá bom,” disse Neneta, “Vou deixar minhas coisas no quarto então.”
Ela atravessou a sala de cabeça alta deixando um rastro de perfume no ar.
Nelson curvou sua cabeça para a do Antonio e murmurou: “Devemos ter cuidado. Até os parentes podem ser perigosos para nossa causa.”
“E aí, Nelson” Antonio falou alto, “como está teu irmão Pedro?”
“Está bem, no Departamento de Física…” respondeu Nelson.
Neneta saiu do quarto.
“Nos vemos mais tarde, Toninho.” Lançando um sorriso para os dois, ela abriu a porta e saiu.
Os dois homens retomaram sua conversa.
“A POLOP se opôs ao regime desde o começo. Você sabe disso, não é?”
“Sim, claro.”
“E ela também se opôs ao Partido Comunista.” Nelson continuou “pois a POLOP não tinha ilusões sobre o que iria acontecer.”
“Certo…”
“Mas não podemos mudar nada se as pessoas não se derem conta do que está em jogo. Esse casal de professores faz reuniões regulares com pequenos grupos de pessoas com o objetivo de discutir assuntos políticas e sociais.”
“Você quer dizer que eles fazem as pessoas pensar?”
“Exatamente. Eles sabem muito. Todos os clássicos e mais. Estou te dizendo, você precisa conhecê-los.”
“Vamos nos encontrar.” Disse Antonio decidido.
“Te aviso quando. Éder está sob a mira da ditadura, pois é um sociólogo. Eles não gostam desse tipo de pessoas, como você sabe. Preciso ir agora. Minha aula de história começa daqui há uma hora.”
Levantando-se, Nelson foi até a porta. Com um afetuoso tapa nas costas Antonio despediu-se e fechou a porta.
A novidade envolveu-o como um manto. Antonio pensou sobre as muitas possibilidades que um envolvimento ativo abriria. As questões sociais haviam sempre sido importantes para ele. A fachada de liberdade social podia enganar a muitos, ainda assim ele acreditava que até que havia espaço para a legalidade, este deveria ser usado. Grupos não era proibidos. Não era perigoso, bastava que as reuniões fossem de poucas pessoas cada vez. Não era em sua natureza ser condescendente e submisso, portanto era díficil ele poder caber nas expectativas da ditadura para com seus cidadãos. Ele não podia ser domesticado. Certamente não sua mente.
Animado, resolveu descer e alcançar sua família. Precisa andar. Na entrada do prédio, ele avistou Lina vindo ao seu encontro. Mais uma vez ela havia deixado sua casa sozinha para ir brincar com os primos.
“Lina?” Disse Antonio desconcertado.
“Tio, quero brincar com a Adriana e o André.” Foi tudo o que ela pôde dizer.
Sorrindo, Antonio pegou-a no colo e disse: “Lina, você sabe que é ainda muito pequena para andar por aí sozinha? Dois anos e meio não são suficientes.”
Lina fitou-o confusa com seus grandes olhos castanhos.
“Tudo bem, não se preocupe, estou inda para lá e vou te levar comigo.” E Antonio alegremente a grandes passos dirigiu-se ao jardim.
Era um dia ensolarado, o pequeno parque ecoava de risos. Ele colocou Lina no chão e ela rapidamente encontrou seu caminho entre as crianças que brincavam por todo lado. Antonio viu Maria sentada sobre um banco entre Neneta e sua querida amiga e vizinha. Pareceu-lhe feliz. No carrinho em sua frente, Alexandre devia estar dormindo sossegado.
Antonio alcançou as moças, deu um oi e decidiu deixá-las batendo papo, preferindo caminhar pelo jardim sem rumo. Perambulando sobre a grama macia, ele continuou pensando nas novas perspectivas políticas. Sentiu-se energizado. Então seus olhos depararam-se com seus filhos, André e Adriana, brincando com Lina em volta de uma árvore.
Sua vida era-lhe significativa por causa das duas principais correntes de paixão que atravessavam seu coração: a família e o engajamento social.
Antonio levantou os olhos para o belo céu azul. Ele amava seu país, cujo hino nacional havia feito sua mãe chorar tantas vezes. Acreditando no poder do conhecimento, ele sentiu-se confiante a respeito da oportunidade que viera até ele: ser parte de um movimento mais amplo que toma uma atitude e oferece às pessoas a chance de pensar e desenvolver diferentes pontos de vista. A liberdade começa por uma mente livre.













